Crise bancária leva Congresso do Paraguai a abrir impeachment contra Santiago Peña

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Colapso do banco digital Ueno, bloqueio de recursos de milhões de clientes e suspeitas de conflito de interesses provocam isolamento do presidente e abalam o governo paraguaio

A crise financeira desencadeada pelo colapso do banco digital Ueno mergulhou o Paraguai em uma turbulência política sem precedentes recentes. O Congresso Nacional aprovou a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Santiago Peña, após denúncias de conflito de interesses, concentração de recursos públicos na instituição financeira e suposta omissão das autoridades reguladoras.

A Câmara dos Deputados aprovou, nesta quinta-feira (5), por 78 votos, a acusação contra Peña. A iniciativa foi apresentada por 35 parlamentares e ganhou força após o presidente perder o apoio de setores do próprio Partido Colorado, que tradicionalmente sustenta seu governo.

O processo avançou para o Senado, que passou a atuar como tribunal político. A crise se agravou com o anúncio de renúncia de Peña, feito em meio à votação no Congresso. A saída, contudo, não foi imediatamente formalizada, mantendo o cenário institucional sob tensão.

Escândalo financeiro e dinheiro público

O estopim da crise foi a intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank, após a instituição apresentar índices de solvência abaixo do mínimo exigido pela legislação. A medida comprometeu o acesso de milhões de clientes às suas contas e provocou preocupação sobre a segurança dos depósitos.

O banco, que chegou a atender cerca de 3 milhões de clientes, também administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo valores vinculados ao Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pelo sistema de aposentadorias do país.

As acusações contra Peña incluem conflito de interesses, uso irregular de recursos previdenciários e favorecimento à instituição. O presidente foi acionista do grupo empresarial ligado ao Ueno até março de 2025.

Os parlamentares também questionam a nomeação de Carlos Carvallo, ex-dirigente da instituição financeira, para a presidência do Banco Central. Carvallo deixou o cargo em meio à crise.

O caso levou à emissão de mandados de prisão contra executivos do banco e ampliou a pressão por investigações sobre a relação entre o setor financeiro e o governo.

Governo isolado e protestos nas ruas

A crise provocou manifestações em Assunção, com milhares de pessoas exigindo explicações e responsabilização dos envolvidos. A insatisfação popular se somou ao desgaste político de Peña, que assumiu a Presidência em 2023 com a promessa de estabilidade econômica e atração de investimentos.

A perda de apoio dentro do Partido Colorado tornou o impeachment uma ameaça concreta. A oposição acusa o governo de permitir a concentração de recursos públicos em uma instituição privada e de falhar na proteção dos poupadores.

Peña, por sua vez, afirmou que os responsáveis pelas irregularidades devem responder à Justiça e defendeu que a recuperação dos depósitos seja prioridade. O presidente nega ter cometido irregularidades.

Impactos econômicos e institucionais

A crise atinge um dos países que vinha sendo apresentado como exemplo de estabilidade econômica na América do Sul. O bloqueio de depósitos e a incerteza política abalaram a confiança dos investidores e pressionaram os mercados financeiros.

A cotação do guarani sofreu desvalorização, enquanto títulos da dívida paraguaia registraram queda. O episódio também reacendeu o debate sobre a fiscalização do sistema bancário e a destinação de recursos previdenciários.

O desfecho do processo de impeachment poderá redefinir o equilíbrio político no Paraguai. Mais do que uma crise envolvendo uma instituição financeira, o caso expõe a fragilidade dos mecanismos de controle estatal e a proximidade entre interesses econômicos e poder político.

A situação coloca em xeque o discurso de estabilidade do governo Peña e abre um novo capítulo de incerteza na política paraguaia.

Foto reprodução redes sociais

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