Adary Oliveira – ex-presidente da Associação Comercial da Bahia, engenheiro químico e professor (Dr.)
Na eleição para a Presidência da República de 1960 o cearense-baiano Juracy Magalhães seria o candidato pela UDN, se não tivesse perdido para Jânio da Silva Quadros, candidato defendido por Carlos Lacerda na Convenção do partido realizada no Rio de Janeiro, sob o argumento que somente Jânio teria condições de derrotar o general Teixeira Lott, o que segundo ele Juracy, também general, não as tinha. O lema de Juracy era “Juracy é limpo, não precisa de vassoura”. Jânio, que adotava a vassoura como símbolo, dizia que iria varrer o Brasil dos corruptos.
Quando Jânio passou pela Bahia fazendo campanha, prometeu trazer de volta para Salvador a sede da Petrobras, que tinha sido transferida para o Rio de Janeiro, talvez em compensação por a Bahia ter perdido a oportunidade de ter seu ex-governador candidato a Presidente da República. O mote era dado pela seguinte argumentação: o Instituto Nacional do Mate (INM) tinha sede em Curitiba, capital do Paraná, estado maior produtor de erva-mate; a Superintendência da Borracha (Sudhevea) tinha sede em Rio Branco, Acre, estado produtor de borracha; o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) tinha sede em Recife, por ser Pernambuco o maior produtor de cana-de-açúcar; o Instituto Brasileiro do Café (IBC) era sediado em São Paulo, estado maior produtor de café; o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) ostentava como endereço a bela Fortaleza, no Ceará, líder nacional das secas, e assim por diante. Pela lógica da época, se a Bahia era o único produtor de petróleo deveria sediar a Petrobras.
Participei de um protesto realizado em Salvador, que passou a ser conhecido como “O dia em que a Bahia parou” onde, nos primeiros meses de 1961, todos pararam por uma hora, entre 11 e meio-dia: estações de rádios, transportes, ascensores públicos, estabelecimentos comerciais, escolas, transeuntes, cobrando a promessa de Jânio, esquecida com sua renúncia em 25 de agosto de 1961. É bem provável que Raul Seixas, que conheci como professor de inglês do Instituto de Estudos Califórnia (IEC), que funcionava do Ed. Bráulio Xavier, na Rua Chile, que nos brindou com a linda canção “O dia em que a Terra parou”, não conhecesse esta história, senão teria nos brindado com “O dia em que a Bahia parou”.
Estou recontando esta história para lembrar ao presidente Lula, que teve votação extraordinária no Estado da Bahia, principalmente nos dois últimos pleitos, que memo que a Bahia não seja contemplada com as novas promessas, que sejam concluídos os grandes projetos inacabados que o governo realiza aqui no Estado da Bahia. Sem citar todos relaciono alguns deles, não incluindo na menção os projetos sociais, tidos como certos. Aqui vai a lista, prometendo fazer os agradecimentos, ou não, no final do mandato:
1. Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL) – A FIOL nasceu para ligar o interior da Bahia ao mar, escoando minério e grãos do Oeste até o Porto Sul, em Ilhéus. Presente nos planos federais desde a década de 2000, a ferrovia avançou em trechos que somam uma fração do traçado original e nunca chegou a operar de forma contínua. A obra virou símbolo da distância entre anúncio e entrega.
2. Metrô de Salvador – O metrô soteropolitano foi inaugurado em 2014, mas a expansão prometida na ponta do lado do mar nunca acompanhou o ritmo das promessas. Estações e trechos anunciados com datas certas foram empurrados ano após ano, e a malha final prevista continua menor do que o planejado originalmente.
3. Trem Regional de Salvador – O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), imaginado para modernizar o transporte na região metropolitana, teve estudos, projetos e até trilhos entregues, mas nunca chegou a operar como serviço regular.
4. Ampliação do Porto Aratu-Candeias – A ampliação dos três terminais graneleiros, de sólidos, de líquidos e de produtos gasosos, que servem a área industrial, deveriam funcionar como principal atrativo do Polo Industrial de Camaçari.
5. Recuperação da Hidrovia do Rio São Francisco – O desenrocamento, retificação das margens e dragagem dos bancos de areia, trariam de volta ao setor de transporte este importante modal, reduzindo custos, integrando microrregiões e contribuindo para perenização do Rio da Integração Nacional.
Esses projetos têm em comum os prazos que nunca terminam, custo que só cresce e a esperança que nunca morre. Serão sempre lembrados pelos seus atrasos e dando a impressão que integram as promessas não cumpridas das campanhas políticas.
Foto site Café com Informação
