Especialistas do mercado financeiro avaliam a deflação no mês de agosto. Para Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, O IPCA-15 de agosto veio melhor do que o esperado, com deflação de 0,40%, contra uma expectativa de queda de 0,32%. “É um resultado positivo para a inflação e levou o acumulado em 12 meses para 4,24%.Mas, para entender a qualidade desse resultado, é preciso olhar além do índice cheio. A média dos núcleos subiu só 0,23%, tivemos nova deflação nos alimentos no domicílio e também nos preços livres. O índice de difusão subiu a 52%, mas é um nível ainda bastante confortável.Boa parte da deflação, claro, veio de fatores pontuais, principalmente da energia elétrica, com o bônus de Itaipu, além da queda das passagens aéreas e dos combustíveis”, diz.
Ele chama atenção para o final de um período de sazonalidade favorável para uma inflação e uma difusão mais baixas. “Então, daqui para frente, vai ser muito importante acompanhar se essa melhora vai continuar mesmo com a retirada desses efeitos temporários. Para o Banco Central, o resultado é positivo e reduz um pouco a pressão sobre o cenário inflacionário. Mas ainda é cedo para comemorar uma vitória definitiva contra a inflação”, cita.
Rafael Rondinelli, economista da MAG Investimentos, entende que, “com este resultado, a taxa acumulada em 12 meses cedeu de 4,52% para 4,24%. O principal vetor de alívio no mês foi o grupo Habitação, que recuou -1,41% (vs. +0,97% em julho) e exerceu o maior impacto baixista (-0,22 p.p.). Em seguida, o grupo Transportes caiu -1,00% (contribuição de -0,20 p.p.), influenciado pela forte deflação em Passagens Aéreas (-13,30%). Alimentação e Bebidas manteve a trajetória de alívio e variou -0,57% (vs. -0,66% em julho), puxado pela deflação contínua em Alimentação no Domicílio (-0,97%)”.
Ele ressalta que, na ponta oposta, as maiores pressões altistas vieram de Despesas Pessoais (+0,66%), Educação (+0,46%) e Saúde e Cuidados Pessoais (+0,40%). Sob a ótica analítica, os Serviços desaceleraram para 0,07% (vs. 0,41% em julho), beneficiados pela queda das passagens aéreas. “Por outro lado, os Serviços Subjacentes aceleraram para 0,50% (vs. 0,30% em julho), vindo acima das expectativas. A Média dos Cinco Núcleos avançou ligeiramente para 0,23% (vs. 0,21% em julho), enquanto o Índice de Difusão Geral subiu para 52,0% (vs. 48,2% anterior) e a Difusão de Serviços saltou para 72,3% (vs. 58,5% no mês anterior, mas abaixo do valor de ago/25: 78,5%). Apesar da leitura cheia significativamente negativa (-0,40%), a composição qualitativa ainda mostra resiliência das pressões subjacentes e de serviços”.
Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, a surpresa foi puxada por passagem aérea e alimentação. “Por outro lado, os serviços subjacentes aceleraram um pouco na margem, com o atenuante de que essa surpresa ficou concentrada em dois itens. O grupo de industriais veio melhor do que o esperado e de forma mais generalizada. O impacto estimado para o IPCA fechado, via itens que se repetem, é de -5 bps”.
Ela sinaliza o potencial para revisão pra baixo devido a reajuste mais baixo que o projetado no preço de cigarros. “Avaliamos o dado como neutro, mas que, se algo, deveria levar a uma revisão ligeiramente para baixo da projeção de 2026”.
Gabriel Pestana, economista da Genial Investimentos, considera que, “À primeira vista, a leitura parece favorável, sobretudo pela contribuição mais benigna de alimentação e alguns bens industriais. No entanto, parte importante da surpresa veio de itens voláteis, como passagem aérea, o que reduz o peso da melhora como sinal definitivo de desinflação mais disseminada. O principal ponto de atenção segue em serviços. Apesar de o grupo cheio ter vindo abaixo do esperado, isso foi fortemente influenciado pela queda em passagens aéreas, item volátil, difícil previsão e menor relação estrutural com os fundamentos econômicos”, declara.
Ele alerta que a mensagem segue sendo de serviços ainda pressionados nas principais métricas anualizadas e dessazonalizadas. “O resultado melhora o cenário de curto prazo para a inflação, mas não elimina a necessidade de cautela. Os componentes mais sensíveis à oferta, como alimentos e parte dos industriais, reforçam um quadro mais benigno, enquanto os núcleos e serviços ainda sugerem resistência. Além disso, a parte benigna pode virar para cima conforme o conflito no Oriente Médio se estende, commodities aceleram e o choque climático do El Niño ainda está para entrar. Por isso, mantemos a leitura de que a inflação segue em trajetória de moderação, mas sem evidências suficientes para abandonar uma postura cautelosa”.
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