O desfecho da novela jurídica em torno do Título de Cidadão Soteropolitano concedido ao senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) extrapolou os autos processuais e expôs as vísceras da disputa pelo eleitorado baiano.
A decisão do plantão do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), que cassou a liminar imposta pela 5ª Vara da Fazenda Pública, devolveu ao palanque bolsonarista mais do que a legalidade de um ato institucional: garantiu um palanque simbólico de grande apelo popular em pleno Farol da Barra.
A reviravolta no Judiciário baiano ilumina três movimentos centrais na estratégia das campanhas na reta final do segundo turno. O primeiro diz respeito a guerra de narrativas no Nordeste. De um lado a tentativa da oposição de barrar a solenidade via ação popular apostava na tese do desvio de finalidade e do uso do maquinário público para alavancar uma candidatura presencial.
Ao derrubar a proibição e afastar a multa de R$ 500 mil imposta à Câmara Municipal, o Judiciário permitiu que os aliados de Flávio capitalizassem o episódio como uma vitória contra o “estrangulamento político” exercido pelas forças de esquerda no estado.
O segundo aspecto segue a linha da autoproteção do Legislativo. A movimentação para recorrer da decisão de primeira instância serviu também para demarcar a defesa da autonomia da Câmara de Salvador. A honraria (Resolução nº 3.592/2026), aprovada pelo plenário soteropolitano, havia se tornado um teste de autoridade para a base aliada ao prefeito Bruno Reis (União Brasil) frente às investidas judiciais da oposição.
Simbolismo em território adverso
Esse último ponto envolve a realização de uma cerimônia festiva com a transferência temporária da sede do Legislativo para a Barra com valor tático evidente. Em uma capital historicamente favorável aos adversários, a transformação de um ato solene em grande evento de rua busca projetar densidade eleitoral e engajar a militância conservadora na reta decisiva do pleito.
O embate em Salvador deixa claro que, na reta final das urnas, nenhum espaço institucional ou ponto turístico fica imune ao jogo de forças da política nacional.
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