A Selic em 13,75% pode reduzir em até 1 ponto percentual o crescimento do PIB brasileiro em 2026, segundo estimativas de especialistas. O principal impacto deve ocorrer sobre o crédito, o consumo financiado e os investimentos empresariais. A projeção ocorre em um cenário de desaceleração da economia. O mercado reduziu a estimativa de crescimento do PIB de 2026 de 1,95% para 1,92%, enquanto a inflação esperada para os próximos 12 meses subiu para 4,53%, acima do teto de 4,5% da meta.
Para Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, uma Selic nesse patamar pode retirar entre 0,7 e 1 ponto percentual do crescimento em relação a uma trajetória de juros mais próxima da neutralidade. “O juro já conseguiu frear a quantidade de crédito antes de conseguir frear todos os preços”, afirma. Segundo ele, famílias reduzem compras financiadas e empresas adiam investimentos, enquanto preços de serviços, salários, energia, alimentos e logística demoram mais para responder ao aperto monetário.
Inflação limita espaço para cortes
O IPCA acumulou 3,44% até julho. Para a inflação terminar 2026 no teto de 4,5%, seria necessário que os preços avançassem pouco mais de 1% entre agosto e dezembro, equivalente a uma média próxima de 0,20% ao mês. O Focus projeta deflação de 0,21% em agosto, mas prevê altas de 0,52% em setembro e 0,33% em outubro.
Para André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital, a desaceleração econômica ainda não foi suficiente para produzir uma queda consistente da inflação. “A desaceleração da economia ainda não está produzindo a desinflação esperada porque uma parcela relevante das pressões de preços não vem apenas do excesso de demanda”, afirma.
Leticia Moschioni, sócia da Finscale, estima que os juros possam retirar entre 0,6 e 0,9 ponto percentual do crescimento de 2026, principalmente pela menor formação de capital e pela redução da velocidade do crédito. Já Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra, destaca que o efeito dos juros ocorre com defasagem e depende de toda a trajetória da política monetária. Para ele, crédito mais caro, adiamento de investimentos e menor capacidade de consumo já são sinais do aperto monetário.
O cenário externo também preocupa. Petróleo, energia, fretes, commodities e conflitos geopolíticos podem manter os custos elevados e dificultar a desinflação. Com crescimento projetado em 1,92% para 2026 e inflação de 5,01%, o cenário reforça o desafio do Banco Central: combater a inflação sem provocar uma desaceleração ainda maior da atividade econômica.
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo
