O que fazer para amenizar os efeitos da seca deste ano

Você está visualizando atualmente O que fazer para amenizar os efeitos da seca deste ano

Adary Oliveira, ex-presidente da Associação Comercial da Bahia, engenheiro químico e professor (Dr.)


Não dá para esquecer o que aconteceu em 1950. Quando eu era menino e vivia lá no sertão de Ruy Barbosa, interior da Bahia, a seca veio com força. Não se sabia do El Niño e ela chegava sem avisar. Os moradores da zona rural chegavam devagarinho na cidade, com seus trajes brancos de tecido de algodão, blusão comprido, calça com cinto feito de cordão e uma cara que dava dó. Costumavam usar chapéu de palha e portar uma mochila com farinha e um pedaço da rapadura. O prefeito, Brasil Ramos, socorria os flagelados abrigando-os na Prefeitura e distribuindo algum serviço remunerado.

A construção da Praça Getúlio Vargas, assentando paralepípedos de granito nos passeios e ruas, em frente ao Grupo Escolar Carneiro Ribeiro, onde cursei o primário, foi assim. Chegou a faltar farinha e trouxeram de Salvador uma fabricada em moinho, de gosto horrível, logo apelidada de “farinha da que incha”. Não esqueço também das procissões organizadas pelo pároco Monsenhor Sizínio Galvão rogando a Santo Antonio, padroeiro da cidade, e a Deus, para fazer chover.


Como este ano a seca está de volta, de acordo com dados do Monitor de Secas de agosto de 2026, ela já está afetando 94% do território baiano e o El Niño já registrou presença. Diante de tudo isso fiz uma pesquisa sobre que providências se poderia tomar para amenizar a seca deste ano. Os aprovisionamentos recomendados são os seguintes:
Segurança hídrica (prioridade máxima):

a) Perfuração e recuperação de poços, cisternas e barreiros, com manutenção preventiva das estruturas existentes;

b) Abastecimento emergencial por carros-pipa, com cadastro transparente das famílias e prioridade para áreas rurais isoladas;

c) Reuso de água turva na agricultura e na limpeza, e instalação de sistemas de captação de chuva;

d) Monitoramento do nível dos reservatórios e gestão de outorgas para evitar sobrecarga.

Agricultura e alimentação:

a) Difusão de culturas e sementes resistentes à seca (milho, sorgo, feijão-caupi, palma forrageira e outras lavouras mais resistentes à seca no semiárido baiano);

b) Programas de garantia de renda e crédito, como o Garantia-Safra e o Projeto Sertão Vivo;

c) Formação de estoques públicos de alimentos (arroz e milho) para conter alta de preços;

d) Fomento à irrigação eficiente (gotejamento, microaspersão) e à agricultura de sequeiro bem planejada.

Defesa civil e resposta:

a) Decretos de emergência e reconhecimento de situação de calamidade para liberar recursos federais;

b) Planos municipais de contingência, com mapeamento de áreas vulneráveis;

c) Articulação federativa — a Bahia participa dos “Diálogos Federativos – Emergências Climáticas 2026/2027”, com R$ 1,335 bilhão destinado nacionalmente a ações preventivas e de resposta;

d) articulação com os demais estados do Nordeste através do Convênio Nordeste.


Saúde e proteção social:

a) Reforço da atenção básica e vigilância hídrica, alertando sobre doenças ligadas à água contaminada;

b) Combate a incêndios e queimadas, que agravam a estiagem e a qualidade do ar;

c) Comitês intersetoriais estaduais para coordenar abastecimento, saúde e assistência social.


No dia a dia (comunidade e família):

a) Consumo consciente de água e reparo de vazamentos;

b) Reservatórios e caixas d’água limpos e protegidos;

c) Armazenamento de alimentos não perecíveis e forragem para o gado;

d) Uso de técnicas de conservação do solo, como curvas de nível e cobertura morta.


Vale lembrar que a gestão é compartilhada entre União, estados e municípios — a articulação preventiva, antes do pico da estiagem, costuma reduzir bastante os danos. Também, houve tempo em que se acreditava que a seca poderia ser combatida e se chegou a criar um Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS), com sede em Fortaleza, Ceará, supondo que a seca pudesse ser combatida, como se não fosse um fenômeno climático.

Era ignorado que o mais importante era construir meios de convivência com a seca, isso sim, mais racional. Outra irracionalidade, para não se dizer outra coisa, era o uso da seca para fins eleitoreiros, usando carros-pipa para abastecer os tanques e cisternas em troca de votos.
Sem dúvida, se poderia avançar com novas pesquisa tomando providências como a dessalinização da água do mar em larga escala e o uso de drones no bombardeamento das nuvens com sais, principalmente à noite, para provocar chuva. Se nada for feito, o jeito é rezar para chover e esperar que o nordestino continue a ser um forte e que não adquira o raquitismo do mestiço do litoral.

foto site Café com Informação


Compartilhe:

Deixe um comentário