Especialistas do mercado financeiro avaliam o anúncio do Banco Central em relação ao corte da taxa de juros anunciada nesta quarta-feira, 16 de setembro, após reunião do COPOM. Segundo Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, o Copom cortou a Selic pela quinta vez consecutiva, em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, como era amplamente esperado pelo mercado. “Mas, para entender a decisão de hoje, é importante comparar a comunicação com a reunião de agosto. Há uma mudança clara no diagnóstico da economia: em setembro, o Banco Central passou a destacar uma moderação mais evidente da atividade, principalmente nos setores mais cíclicos, enquanto em agosto falava em uma desaceleração gradual, mas ainda com sinais mistos entre os setores. A inflação corrente também apresentou melhora: em setembro, o Copom afirmou que tanto o índice cheio quanto a média das medidas subjacentes desaceleraram e ficaram abaixo do limite superior do intervalo de tolerância”, avisa.
Ele entende que, por outro lado, o Banco Central ficou mais cauteloso com o cenário à frente. As expectativas de inflação continuam desancoradas, em 4,9% para 2026 e 4,3% para 2027, e o Comitê passou a destacar com ainda mais ênfase os riscos relacionados ao petróleo, aos efeitos climáticos sobre alimentos e energia, ao câmbio e à combinação das políticas econômicas. “No cenário de referência do próprio Copom, a projeção de inflação para 2026 subiu de 5,1% em agosto para 5,2% agora, enquanto a projeção para o primeiro trimestre de 2028 permaneceu em 3,2%”.
Ele considera que a grande mensagem do BC é que o corte de hoje não representa um compromisso com novas reduções. “Em agosto, o Copom já dizia que a magnitude total do ciclo seria definida conforme as novas informações; agora, mantém exatamente essa flexibilidade e reforça que o ambiente de maior incerteza, as expectativas desancoradas e os riscos elevados exigem cautela. Para o investidor, o cenário ficou mais dependente dos próximos dados: a atividade mais fraca abre espaço para novos cortes, mas petróleo, câmbio, inflação esperada e política fiscal podem limitar esse espaço. A ata e os próximos indicadores serão fundamentais para entender se os 13,75% serão o piso da Selic neste ciclo ou se haverá espaço para uma nova etapa de flexibilização. O Copom entregou o corte que o mercado esperava, mas não entregou um cheque em branco para os próximos cortes. A atividade está desacelerando e a inflação corrente melhorou, mas as expectativas continuam desancoradas e os riscos aumentaram. Agora, o mercado vai acompanhar os dados para descobrir até onde essa calibração pode avançar”.
Segundo Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, o comunicado destaca desaceleração em setores mais cíclicos, e da média da inflação. “Projeção no horizonte relevante segue em 3.2% – em linha com o esperado, com uma ligeira alta em livres, provavelmente por efeito inercial da inflação mais alta de 2027. Uma possibilidade é a incorporação de um efeito maior de el nino na inflação de alimentos. Sinalização segue de dependência dos dados. Continuidade do ciclo de calibração segue dependente do câmbio.Em um primeiro momento, mantemos 13.75%, com assimetria baixista para 2026. Mas reconhecemos que a barra para continuidade do ciclo é baixa”.
Na visão de Eduardo Palomine, sócio na EXM Partners, a redução da Selic era amplamente esperada pelo mercado. “No ambiente empresarial, a discussão mais relevante vai além da decisão em si e está nos próximos meses. O controle da inflação continua sendo o principal norteador da política monetária, porém a dúvida para muitas empresas é por quanto tempo ainda será necessário conviver com os efeitos de um cenário de juros _higher for longer_, no qual o custo de capital permanece elevado, o crédito segue restrito e uma parcela relevante da geração de caixa continua comprometida com o serviço da dívida”, aponta.
Para ele a decisão de hoje é relevante, mas o que está em jogo agora é quando a redução da Selic poderá efetivamente ser considerada um alívio para as empresas — e quanto desse alívio poderá ser convertido em desalavancagem e investimento.
Segundo José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, o comunicado chamou atenção para o fato de que a economia nacional continua bastante resiliente, ao mesmo tempo em que a atividade mostrou uma certa desaceleração, principalmente nos setores cíclicos. Para ele, a inflação desacelerou, mas ainda permanece acima do teto da meta. Manteve a simetria altista do balanço de risco e a expectativa para inflação longas continuam desancoradas. “Um ponto importante que o Copom não chamou a atenção foi o fato de que a desaceleração da inflação se deveu em grande parte a questões puramente temporais, como a redução da inflação de alimentos. Algo que pode voltar nos próximos meses, devido ao El Niño mais intenso, ao mesmo tempo em que a guerra no Oriente Médio continua fazendo com que o preço do petróleo permaneça acima de 100 dólares/barril. Neste contexto, existem muitas incertezas pela frente que o Copom não chamou tanto a atenção. De resto, o comunicado teve poucas mudanças em relação ao comunicado da reunião passada. Não mencionar o fato de que a desaceleração da taxa de inflação depende de fatores pontuais e não da política monetária sugere uma expectativa mais suave da política monetária”.
Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, observa que, no cenário doméstico, houve reforço da moderação gradual da atividade, principalmente nos setores mais cíclicos. “O parágrafo sobre a política fiscal foi mantido, com a reafirmação de que seus efeitos sobre as expectativas e os prêmios de risco seguem em monitoramento. No horizonte relevante (1º trimestre de 2028), a projeção ficou estável em 3,2%, ainda acima da meta. O seu balanço de riscos para a inflação permaneceu assimétrico para cima”.
Ele aponta que, novamente, o Comitê não se comprometeu com os próximos passos e deixou a condução totalmente dependente dos dados, reforçando que as decisões seguirão a evolução do cenário. “Entendemos que a falta de sinalização é deliberada: diante da volatilidade esperada para o período eleitoral, o Copom preserva a flexibilidade para calibrar o ritmo, sem indicar que vai interromper o ciclo.Mantemos a expectativa de taxa Selic em 13,75% até o fim do ano, embora reconheçamos que os últimos dados de atividade indicando desaceleração da economia e o resultado das eleições aumentem as chances de continuidade do ciclo. A ata desta reunião deve trazer mais detalhes sobre a discussão”.
Para Rafael Espinoso, portfolio manager da GCB Investimentos, a principal virada do comunicado foi a confirmação de que a inflação cheia voltou para dentro da banda de tolerância, dissipando o risco de carta aberta e validando integralmente a estratégia de olhar para frente. “Pela primeira vez no ciclo, a projeção do horizonte relevante se estabilizou, em 3,2% no primeiro trimestre de 2028. O ponto de atenção permanece em 2027, onde tanto o Focus (4,3%) quanto a projeção do próprio BC (3,9%) seguem subindo. O curto prazo reancora enquanto o médio prazo desancora, e é exatamente essa divergência que definirá o ponto final do ciclo”.
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