Adary Oliveira ex-presidente da Associação Comercial da Bahia, engenheiro químico e professor (Dr.)
Sempre que se aproxima o dia das eleições lembro-me de estórias que me contaram, algumas verdadeiras, outras que não devem ter acontecido. Não sai da minha memória a festa que era o dia das eleições na minha adolescência em Ruy Barbosa. As pessoas se vestiam bem para votar, para cumprir o mais importante compromisso que tinham como cidadão. Calçavam o sapato novo, trajavam a roupa guardada para as festas e acordavam cedo.
Naturalmente que existiam aqueles mais sabidos que só votavam à tarde. Diziam que aproveitavam o dia para merendar, almoçar e lanchar de graça quando falavam para o candidato que ainda não tinha votado. Se dissesse que já tinha votado, ninguém o procurava mais e ele perdia as benesses.
Em 1977 eu cursava o Mestrado de Empresas na Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Participei de uma reunião com meus colegas de sala com Jânio da Silva Quadros, que aceitou convite meu para debater problemas do Brasil. Jânio fora eleito Presidente do Brasil em Outubro de 1960 com apenas seis milhões de votos, pela UDN, partido que o abrigou por vencer a convenção da UDN por obra de Carlos Lacerda, político do Rio de Janeiro. Ele não era da UDN e derrotou na reunião o candidato nato Juracy Magalhães, ex-governador da Bahia.
Como sabemos, ele governou o Brasil de 31 de janeiro a 25 de agosto de 1961, quando renunciou. Jânio iniciou sua palestra contando que perguntaram a ele como iria fazer sua campanha, que lugares iria visitar, considerando a imensidão do país. Ele respondeu dizendo que nos lugares onde o Marechal Teixeira Lott tivesse ido, ele não precisaria ir. Perguntei a ele quais foram os problemas de seu governo que mais lhe causaram constrangimento, tendo ele respondido: O reatamento das relações comerciais com a União Soviética; A condecoração de Che Guevara; e A Instrução 204 da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), precursora do Banco Central (BC).
Em relação ao último fato, o Ministro da Fazenda era o baiano Clemente Mariani, ex-Presidente do Banco da Bahia (BB). A medida dobrou o valor do Dólar e o BB, que tinha uma boa carteira de câmbio, segundo se contava aqui, passou de tamborete para banco.Outro político que conheci foi Antonio Balbino, o mestre dos políticos baianos na época. Em 1980 eu trabalhava no BNDES e fui levado por um colega a almoçar com Balbino, no seu escritório da Rua da Quitanda, no Rio de Janeiro.
Ouvi histórias incríveis (e não estórias) bem contadas pelo ex-Governador da Bahia. Uma delas foi do acidente aéreo que matou o candidato a governador da Bahia Lauro Farani Pedreira de Freitas, seu vice Gersino Coelho e o piloto Guilherme Castro, no dia 11 de setembro de 1950, a poucos dias das eleições. Balbino conto-me que ele ia num pequeno avião com o candidato a governador Lauro de Freitas percorrendo cidades das margens do Rio São Francisco, em plena campanha política. Gersino Coelho, candidato a vice-governador, seguia em outro avião.
Em Bom Jesus da Lapa, quando iam decolar para um voo com destino a Carinhanha, Gersino pediu a ele para ir ao lado de Lauro no mesmo avião, no que ele concordou com a troca. Quando ele chegou a Carinhanha o outro avião não havia chegado o que levou todos que esperavam a ficar preocupados. Ele então, retornou para Bom Jesus da Lapa, voando baixo e seguindo o Rio. Próximos a Bom Jesus pôde ver os destroços e alguns carros chegando.
Na semana seguinte, já bem próximo das eleições, marcada para 3 de outubro, reuniu-se com os correligionários na sede do PSD, na Rua Carlos Gomes, em Salvador, e assim que a reunião foi iniciada os partidários apresentaram o Ernesto Simões Filho, dono do Jornal A Tarde, como o novo candidato do partido. Balbino então respondeu: “É o candidato de vocês, não o meu”.
Todos recuaram e Balbino apresentou o nome de Regis Pacheco. Depois do acidente, não se sabe quem, inventaram que o opositor, Juracy Magalhães, tinha mandado colocar açúcar na gasolina do avião, o que nunca se confirmou. Balbino continuou a contar que Regis foi eleito, mas quando ele percebeu que não fazia um bom governo, foi afastando-se dele e aproximando-se do Dr. Getúlio, Presidente da República, tornou-se Ministro da Educação e Saúde um ano depois.
Não perdi a chance de ouvir de Balbino a estória do comício do Largo da Calçada, quando ele, candidato a governador, começou sendo vaiado e terminou carregado nos ombros do povo até a Igreja do Bomfim. De Jânio ouvi contar, que durante a Campanha política teria perguntado a seu vice Milton Campos por que ele fazia um discurso diferente em cada cidade.
Milton teria respondido: porque não tenho a sua memória. Milton perdeu a eleição para João Goulart, vice da chapa de Lott, e Jânio foi eleito. De Juscelino contam a estória que um assessor dele perguntou o que fazer, pois a caderneta onde anotava os pedidos tinha terminado. Juscelino teria respondido: Jogue fora e abra outra. Estórias da política.
foto site Café com Informação