A forte expansão de 20% na disposição para a compra de bens duráveis na comparação anual e a elevação de 1,1% na perspectiva de consumo no mês lideraram as variações da Intenção de Consumo das Famílias (ICF) em julho de 2026. Sob o efeito desses movimentos, o índice geral ajustado sazonalmente avançou 0,1% frente a junho e acumulou alta de 2,6% em 12 meses, atingindo 105,6 pontos. O resultado, apurado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e divulgado nesta quinta-feira (23), renova o maior patamar da série histórica desde março de 2015. Por outro lado, a perspectiva profissional registrou o recuo mais intenso desta edição do estudo, encolhendo 1,3% no mês e 8,7% no ano, figurando como a única variação negativa da pesquisa no confronto com julho de 2025.
O salto na disposição para adquirir bens de maior valor refletiu diretamente o ambiente inflacionário mais favorável. O subíndice do momento para compra de duráveis alcançou 77 pontos, beneficiado pela inflação acumulada de 0,78% em 12 meses para essa categoria em junho – ritmo consideravelmente menor do que os 4,64% registrados pelo IPCA no mesmo período. Essa descompressão dos preços, somada às expectativas quanto aos próximos passos da taxa básica de juros e ao mercado de trabalho, impulsionou a perspectiva de consumo para 108,6 pontos. As condições de financiamento também acompanharam esse movimento positivo, com o acesso ao crédito crescendo 0,8% no mês e 7,4% na comparação anual, somando 104 pontos. O nível de consumo atual registrou avanço gradual de 0,1% no mês e de 2,8% no ano, para 93 pontos.
Para o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, os resultados da pesquisa refletem a confiança que os brasileiros mantêm no comércio. “Essa ligeira, porém contínua, melhora mensal na intenção de consumo das famílias evidencia a resiliência do setor produtivo”, avalia. “Em um cenário marcado por oscilações internas e externas da economia, consumidores e empresários compartilham tanto preocupações quanto expectativas em relação às oportunidades do mercado”, completa Tadros, observando que essa sintonia se manifesta na dinâmica dos diferentes segmentos, que alternam períodos de maior aquecimento das vendas. “É o caso dos bens duráveis, favorecidos pela desaceleração da inflação em 2026.”
Receio com o futuro profissional
No mercado de trabalho, a percepção dos consumidores apresentou comportamento divergente entre o cenário presente e a visão de futuro. A avaliação das condições atuais seguiu estável: o emprego atual subiu 0,4% na variação mensal (e positivos 1,5% em relação a julho do ano passado), atingindo 127,7 pontos, com 42,2% dos entrevistados declarando sentir segurança na ocupação.
Em contrapartida, a perspectiva profissional caiu pelo terceiro mês consecutivo ao recuar para 106 pontos.
Embora 48,6% das famílias ainda mantenham otimismo quanto aos próximos meses, este é o menor percentual observado na pesquisa desde novembro de 2022. Essa cautela coincide com a retração mensal de 0,2% na percepção da renda atual (124 pontos), influenciada pela queda de 0,8% no rendimento médio real captada pela PNAD Contínua no trimestre encerrado em maio.
Prudência nas compras
Segundo a economista da CNC Catarina Carneiro, a combinação entre a alta da intenção de consumo e o relativo freio na perspectiva profissional traduz um comportamento pragmático por parte das famílias. “O consumidor aproveita a descompressão de preços nos bens duráveis e a segurança do emprego no presente para realizar compras maiores represadas, mas mantém os pés no chão em relação ao futuro de sua atividade e remuneração. Há uma percepção clara de que o fôlego da renda demanda prudência, o que leva as famílias a consumirem com mais critério sem comprometer o orçamento já muitas vezes endividado diante das incertezas no mercado de trabalho à frente”, avalia Catarina.
Famílias que ganham menos querem comprar mais
A segmentação por faixa de renda mostrou que o avanço mensal da intenção de consumo foi sustentado pelas famílias com rendimento de até 10 salários mínimos. Este grupo cresceu 0,1% no mês e 2,9% no ano, alcançando 103,2 pontos, impulsionado pelo incremento de 1,1% no acesso ao crédito e pela desaceleração do INPC para 4,33% em 12 meses.
Como resultado, o nível de consumo atual desse segmento expandiu 3,8% frente a julho do ano passado. Já as famílias com renda superior a 10 salários mínimos interromperam uma sequência de sete meses de alta e fecharam julho em estabilidade (118,2 pontos), afetadas pela queda de 0,6% no acesso ao crédito e de 0,8% na perspectiva profissional, além de um recuo anual de 0,6% no nível de consumo atual.
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