Após 1º turno, mercado projeta Selic menor para 2027, mas condiciona melhora à disciplina fiscal

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Com o fim do primeiro turno das eleições, gestores e analistas do mercado financeiro recalculam as trajetórias para os principais indicadores econômicos do Brasil. Embora o último Boletim Focus indique uma taxa Selic em 12% ao ano, crescimento do PIB de 1,4% e inflação em 4,3% para o final de 2027, especialistas avaliam que o resultado das urnas abre espaço para revisões no custo do capital, desde que sustentadas por previsibilidade fiscal e governabilidade.

Analistas do setor projetam que a taxa básica de juros ao final de 2027 pode se situar abaixo do consenso do mercado, em patamares entre 11% e 11,75%, dependendo dos desdobramentos do segundo turno e das sinalizações do novo governo.

Prêmio de risco e a curva longa de juros


A percepção geral entre os executivos é que o efeito imediato do processo eleitoral recai sobre a curva de juros de longo prazo e sobre o risco-país, antes mesmo de eventuais decisões do Comitê de Política Monetária (Copom).

A nova composição das bancadas no Congresso Nacional alterou a correlação de forças na Câmara e no Senado, o que pode favorecer a agenda de controle de gastos, ainda que não garanta aprovação automática de reformas.

“A eleição presidencial ainda será decidida no segundo turno e, para o Banco Central, continuarão sendo determinantes a trajetória da inflação, as expectativas, o câmbio, a atividade e principalmente a percepção sobre a política fiscal a partir de 2027. O que pode reagir mais rapidamente ao resultado eleitoral é a curva de juros de longo prazo”, pontua Gustavo Assis, CEO da Asset.

Para os analistas, o ponto central do debate não é apenas a taxa de curto prazo, mas a redução do prêmio cobrado pelo mercado para prazos mais extensos.”O Focus de hoje já nasce parcialmente defasado em relação ao novo risco político. Eu manteria viés de queda para a Selic e, neste momento, trabalharia com algo próximo de 11,5% no fim de 2027. Para destravar investimento em 2027, o ponto central será reduzir a incerteza fiscal e regulatória e, principalmente, fazer os juros reais longos cederem”, explica Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

André Matos, CEO da MA7 Capital, reforça a prioridade da previsibilidade fiscal sobre a dinâmica dos preços no atacado:”Continuamos com uma economia que esfria sem comprar desinflação. O que move preço não é quem vence, é a composição da equipe econômica, o desenho do Orçamento e a trajetória de despesa obrigatória. Enquanto essas definições não vierem, a parte longa da curva de juros segue cobrando prêmio, e é ela, não a Selic de amanhã, que determina se o investimento produtivo volta ou não.”

Impacto no capital de giro, crédito e valuationA perspectiva de taxas elevadas por mais tempo pressiona o custo operacional das empresas e altera a avaliação de ativos de risco, como o mercado de venture capital e fundos estruturados.Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, destaca o impacto do custo de capital nas decisões de investimento em startups e empresas de alto crescimento:”Se o pós-eleição reduzir a percepção de risco e permitir que a Selic termine 2027 perto de 11% a 11,5%, começa a mudar a relação entre risco e retorno para quem investe em empresas de crescimento. Capital de risco volta quando o investidor consegue enxergar uma saída futura com mais clareza, não simplesmente quando o Copom corta 25 pontos-base.”

A eficiência financeira interna passa a ser vista como um fator crítico para a preservação de caixa enquanto o custo do dinheiro não recua de forma substancial.”Existe uma variável menos visível que ajuda a explicar por que a atividade demora a reagir: o capital de giro. Uma empresa que consegue reduzir seus prazos de recebimento libera caixa de forma direta. Em 2027, a retomada não dependerá apenas de dinheiro mais barato; dependerá também de usar melhor o dinheiro que já circula dentro da empresa”, observa Letícia Moschioni, sócia da Finscale.

No mercado de crédito, a expectativa é de maior seletividade do que de barateamento amplo das linhas de financiamento.”Para quem toma dinheiro, a taxa final é formada pela taxa básica mais spread, risco, garantia e prazo. Vejo 2027 menos como um ano de crédito simplesmente mais barato e mais como um ano de maior diferenciação entre bons e maus riscos. Empresas com garantias e geração de caixa organizada poderão capturar primeiro a redução dos juros”, afirma Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco.

Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, acrescenta que a estrutura do mercado de capitais depende de horizontes mais previsíveis: “FIDCs, FIIs, FIPs e operações de M&A dependem não apenas do nível dos juros, mas também de previsibilidade jurídica, fiscal e econômica. Portanto, o teste de 2027 não será apenas quantos pontos a Selic poderá cair, mas se o Brasil conseguirá ampliar o horizonte de planejamento de empresas e investidores.”

Interação com o cenário internacionalA trajetória da política monetária doméstica permanece condicionada aos movimentos de bancos centrais estrangeiros, em especial o Federal Reserve (Fed), nos Estados Unidos.

Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, adverte sobre a influência das taxas globais na margem de manobra do Banco Central brasileiro:

“Eu seria mais cauteloso em reduzir a Selic projetada depois da eleição porque o Brasil não define sozinho o seu custo de capital. Se os juros americanos permanecerem altos, o Banco Central brasileiro terá menos liberdade para cortar agressivamente sem alterar o diferencial de juros e pressionar o câmbio. Em 2027, a decisão de alocação provavelmente dependerá tanto do que fizer o Congresso brasileiro quanto do que fizer o Federal Reserve.”

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