O fim da escala 6×1 alcançará cerca de 14,7 milhões de empregados com carteira assinada que trabalhavam nesse regime em dezembro de 2025, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego divulgados neste mês. A previsão de duas folgas semanais, a partir de dezembro, coloca o uso do tempo livre no centro do debate sobre saúde, esporte e convivência dentro das empresas.
Com a Emenda Constitucional nº 141, promulgada em 16 de outubro, a jornada máxima cairá de 44 para 42 horas semanais em dezembro de 2026 e para 40 horas em dezembro de 2027, sem redução salarial.
Para Guilherme Rossi, CEO e cofundador da MeshMe/Corporate Games Brasil, a mudança deve levar as empresas a conhecer melhor a rotina das equipes antes de criar iniciativas de bem-estar. “Com dois dias de folga, as pessoas terão mais possibilidades de organizar a semana. Cabe às empresas oferecer oportunidades reais de convivência e esporte que façam sentido para diferentes perfis e horários, em vez de repetir atividades sem saber quem consegue participar”, afirma.
A prioridade dos trabalhadores não é necessariamente praticar esportes. Em pesquisa nacional realizada entre março e abril de 2024, o Instituto DataSenado perguntou a pessoas que exerciam atividade remunerada como utilizariam o tempo livre caso a jornada fosse reduzida. Para 40%, a preferência era estar com a família; 17% escolheram cuidados com a saúde; 16%, capacitação; 8%, atividade física; e 6%, lazer. O levantamento registra intenções declaradas, não o comportamento que efetivamente ocorrerá após a nova regra.
Os percentuais ajudam a mostrar que a folga adicional não terá uma finalidade única. Enquanto alguns trabalhadores poderão procurar atividades esportivas, outros precisarão dedicar o período à família, ao estudo ou ao próprio descanso. Para as organizações, isso significa abandonar programas padronizados e buscar formatos mais acessíveis, como encontros em horários variados, atividades para diferentes níveis de condicionamento e opções que não exijam presença em um único dia da semana.
A mudança também alcança setores com rotinas presenciais e equipes distribuídas por turnos, como comércio e serviços. Nesse ambiente, ações de esporte e convivência podem criar contatos entre colegas que raramente trabalham no mesmo horário. Mas sua efetividade depende de escolhas concretas, como identificar o interesse dos profissionais, facilitar a participação de equipes operacionais e evitar que o engajamento seja medido pela presença em eventos.
Segundo Rossi, a nova jornada não produzirá, sozinha, uma cultura corporativa mais saudável. “O esporte pode aproximar profissionais de setores que quase não se encontram na rotina de trabalho. Com horários variados e participação das equipes na escolha das atividades, as empresas conseguem criar oportunidades mais acessíveis de convivência, em vez de oferecer ações que poucos conseguem aproveitar”, conclui.
Para os departamentos de RH, a resposta poderá ser observada na prática: quantas equipes participam, quais turnos ficam de fora e que atividades despertam interesse. A nova jornada exige rever não só as escalas, mas também a forma de planejar e avaliar programas de bem-estar.
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