Incerteza eleitoral pode adiar até R$ 62 bilhões em consumo no varejo brasileiro em 2026

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Um levantamento do IBEVAR-FIA Business School, com duas décadas de dados de vendas do varejo (PMC/IBGE) cruzados com a atividade geral da economia (IBC-Br/BCB), identificou um padrão que se repete há 20 anos e um risco que só apareceu duas vezes: quando a eleição presidencial chega empatada, o consumidor trava a compra de maior valor — e o efeito pode custar ao comércio até R$ 62 bilhões em um único trimestre.

Com o país às vésperas de uma eleição que reúne o maior índice de incerteza de política econômica (EPU-Brasil) já registrado no início de um ano eleitoral presidencial — 238 pontos, ante 177 em 2022 e 146 em 2014 — e pesquisas mostrando os dois principais candidatos separados por margem apertada, o estudo indica que 2026 reúne justamente as condições que, no passado, precederam o maior recuo do varejo em ano de eleição.

O padrão de duas décadas

Historicamente, ano de eleição é bom para o varejo: no trimestre agosto-outubro, sob governos de FHC, Lula, Dilma e Temer, todas as principais linhas do setor cresceram acima do padrão dos demais anos — com destaque para veículos, cuja vantagem chegou a 5,5 pontos percentuais. O padrão se repete independentemente do campo político no poder.

A exceção que virou alerta

O padrão se inverteu apenas duas vezes — exatamente nas duas eleições decididas por menos de 5 pontos no segundo turno, 2014 e 2022. Nesses anos, o varejo ampliado rodou 2,3 e 4,8 pontos abaixo do ritmo da própria economia no trimestre da votação, contra uma vantagem de até 3,9 pontos em eleições tranquilas. O consumo não foi cancelado — foi adiado para depois de saber quem venceria.

A conta: R$ 62 bilhões

O varejo ampliado brasileiro fatura cerca de R$ 4,3 trilhões por ano — R$ 1,08 trilhão por trimestre. Cada ponto percentual de crescimento perdido no trimestre da urna equivale a R$ 10,8 bilhões. Nas duas eleições de empate técnico, o setor ficou 5,8 pontos abaixo do seu padrão esperado — um freio de até R$ 62 bilhões que deixou de passar pelo caixa do comércio.

2026 já mostra o primeiro sinal

O segmento material de construção — o segmento mais penalizado em 2022 — já roda 2,7 pontos atrás da economia no acumulado do ano, o primeiro indicador a sair do roteiro. Ao mesmo tempo, a confiança do consumidor (FGV) caiu pela quarta vez seguida, para 84,7 pontos, puxada pelas expectativas. No mercado financeiro, as projeções de PIB para 2027 no boletim Focus têm dispersão três vezes maior que as de 2026 — sinal de que o desacordo dos economistas está concentrado no dia seguinte à eleição.

Paradoxalmente, o estímulo pré-eleitoral também está em curso: os emplacamentos de veículos cresceram 16,9% em agosto, o terceiro melhor resultado da história para o mês, segundo a Fenabrave. Os dois atos do ciclo eleitoral — o impulso e a cautela — estão acontecendo ao mesmo tempo, à vista de quem acompanha os indicadores.

Claudio Felisoni, Presidente do IBEVAR e Professor da FIA Business School chama atenção para um agravante inédito: um eventual segundo turno em 25 de outubro cairia diretamente sobre a Black Friday (27 de novembro) e o Natal — as semanas mais importantes do calendário do varejo. Historicamente, o alívio pós-eleição existe (o varejo ampliado cresce em média 1,5% no trimestre novembro-janeiro, contra 0,9% em anos normais), mas nas duas eleições de empate técnico o rebote ficou abaixo do padrão — parte da venda adiada nunca volta.

Foto Mohamed_hassan/Pixabay

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