A tentativa do candidato ACM Neto (União Brasil) de apresentar experiências de outros estados como contraponto à regulação da saúde na Bahia esbarra em um problema simples: basta consultar a imprensa desses mesmos lugares. São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás, entre outros estados frequentemente citados como exemplos de gestão, convivem com filas extensas, esperas de anos e dificuldades semelhantes — e, em determinados casos, mais graves — às enfrentadas pelo SUS baiano.
O levantamento de reportagens publicadas entre 2024 e 2026 mostra que não existe o modelo sem fila sugerido pelo discurso do ex-prefeito.
Os dados não sustentam a ideia de que os estados apresentados por ACM como referência tenham resolvido a regulação. Ao contrário: enquanto a Bahia reduziu significativamente seu tempo de resposta, a imprensa registra nesses estados filas de meses ou anos, superlotação, falhas de sistemas e dificuldades de acesso.
Na Bahia, ao contrário do que diz ACM, os indicadores oficiais mostram melhora contínua no tempo de resposta da regulação. Em 2022, 49% dos pacientes regulados conseguiam vaga em até 24 horas; em 2025, esse percentual chegou a 71%. No mesmo intervalo, a proporção de atendimentos resolvidos em até 48 horas subiu para 81% e, em até 72 horas, para 86%. A Central Estadual de Regulação funciona 24 horas por dia, recebe demandas dos 417 municípios e organiza o acesso a UTIs, cirurgias, internações e exames de alta complexidade. A ampliação da capacidade assistencial também produziu efeitos concretos: o Hospital Ortopédico do Estado, integrado à lista única da regulação, triplicou a oferta de vagas e reduziu em até 85% o tempo de espera por alguns procedimentos.
Em São Paulo, a Folha de S.Paulo informou em 20 de maio deste ano que somente a capital tinha cerca de 149 mil pessoas aguardando cirurgias eletivas. Uma das pacientes ouvidas pelo jornal estava na fila desde 2022 e chegou a receber uma ligação para saber se ainda estava viva. A reportagem registrou que, apesar da redução da demanda desde 2023, a espera continuava atingindo dezenas de milhares de pacientes.
Minas Gerais oferece um retrato ainda mais expressivo. O Estado de Minas, em reportagem publicada em 8 de julho de 2024, mostrou que havia quase 500 mil pessoas aguardando cirurgias eletivas no estado. Só Belo Horizonte acumulava dezenas de milhares de pacientes na fila, e o sistema estadual voltou a ser alvo de críticas em 2026 após a implantação de uma nova plataforma de regulação, questionada por municípios, Ministério Público e pela própria Justiça.
Em Santa Catarina, reportagem do NSC Total, de 23 de outubro de 2024, encontrou pacientes esperando até dez anos por cirurgias e exames no SUS. O levantamento reúne ainda registros de UTIs lotadas, cancelamento de procedimentos, falta de médicos reguladores e investigações sobre a própria organização das filas. Em 2026, o Tribunal de Contas catarinense chegou a cobrar mecanismos de rastreamento para impedir que pacientes com câncer fossem esquecidos no sistema.
O Rio Grande do Sul também desmonta a ideia de que basta copiar experiências externas para eliminar a espera. Em janeiro de 2025, o GZH registrou cerca de 670 mil pedidos de consultas especializadas. No fim do mesmo ano, ainda havia 219 mil pedidos de cirurgia aguardando atendimento. Em Porto Alegre, filas para consultas e exames chegaram ao maior patamar em quatro anos, com pacientes esperando mais de dois mil dias.
Mesmo Goiás, que adotou ferramentas digitais para organizar o acesso, continuou convivendo com filas significativas. Em abril de 2026, a Secretaria Estadual de Saúde reconheceu 23.883 pacientes aguardando cirurgias eletivas. Poucos meses depois, uma investigação policial apurava suspeitas de fraude em dados para alterar prioridades e permitir que pacientes furassem a fila.
foto Divulgação govba
