O memorando de cooperação para integração do transporte aéreo regional no Mercosul, assinado pelo Brasil nesta semana, repercutiu no setor ao abrir a possibilidade de companhias estrangeiras operarem rotas domésticas em outros países do bloco. Se implementado gradualmente, o acordo poderá ampliar a oferta de voos e a concorrência, mas também levanta dúvidas sobre o impacto para as empresas locais diante das diferenças econômicas entre os países participantes.
Para Luiz Moura, conselheiro de Turismo da FecomercioSP e especialista em gestão de viagens corporativas, a medida pode beneficiar os passageiros com mais opções e preços competitivos, mas exigirá regras capazes de evitar desequilíbrios entre companhias com estruturas financeiras muito diferentes. “Quanto mais empresas disputam um mercado, maior tende a ser a oferta de voos e mais competitivos ficam os preços. Para o passageiro, esse costuma ser o principal benefício de uma abertura como essa”, afirma.
Na avaliação de Moura, o desafio está em garantir que a ampliação da concorrência aconteça em condições equilibradas. Segundo ele, empresas sediadas em economias mais robustas podem ter maior capacidade de investimento, acesso a capital e margem para operar com preços mais baixos do que companhias de países menores. “Uma companhia que atua em um mercado economicamente mais forte pode ter mais recursos para sustentar uma operação em outro país. Isso pode criar uma competição desigual com empresas locais, que operam em uma realidade completamente diferente”, explica.
O especialista lembra que modelos semelhantes já funcionam em outras regiões do mundo, especialmente na Europa, onde companhias como a Ryanair operam voos domésticos em diferentes países da União Europeia. Na sua avaliação, porém, a comparação deve ser feita com cautela. “Na Europa, os países têm níveis de desenvolvimento mais próximos e, em grande parte do bloco, compartilham a mesma moeda. No Mercosul, convivemos com economias muito diferentes, moedas distintas e realidades financeiras bastante desiguais. Isso pode produzir efeitos diferentes dos observados no mercado europeu”, afirma.
Para Moura, a criação do grupo de trabalho previsto no memorando será fundamental para definir como a abertura será implementada e quais mecanismos poderão preservar a competitividade das companhias nacionais sem comprometer os ganhos esperados para os passageiros. “A abertura tende a ser positiva para quem viaja, desde que exista um ambiente regulatório capaz de equilibrar a competição entre empresas que partem de condições econômicas muito diferentes”, conclui.
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