Hugo Venda, CEO da Unicopag e especialista em meios de pagamento e infraestrutura financeira
Em dezembro de 2025, o Pix registrou 313,3 milhões de transações em apenas 24 horas e movimentou R$ 179,9 bilhões, o maior volume diário desde o lançamento do sistema. O recorde foi celebrado como prova de eficiência e escala, ao mesmo tempo em que expõe um desequilíbrio estrutural mais profundo. O Brasil construiu uma das infraestruturas de pagamentos mais rápidas do mundo, enquanto manteve uma retaguarda operacional fragmentada, que transfere para o varejo o custo de administrar essa complexidade. O sistema funciona no plano sistêmico, mas falha no nível produtivo, onde decisões são tomadas, margens são preservadas e o risco é absorvido.
Os dados indicam que o desafio não é tecnológico, e sim organizacional. Segundo a ABECS, o setor de cartões movimentou R$ 2,4 trilhões no segundo semestre de 2025, crescimento de 13% em relação ao ano anterior, com 25,8 bilhões de transações. O avanço foi puxado pelas vendas não presenciais, que cresceram 22%, e pelo crédito, com alta de 15%, sinalizando um varejo cada vez mais híbrido. Em paralelo, o Banco Central aponta que as transações Pix entre pessoas e empresas cresceram 25% no mesmo período e já respondem por 44% do total. O dinheiro circula entre canais físicos e digitais com naturalidade, mas a gestão desses fluxos permanece compartimentada, como se cada meio de pagamento fosse um negócio isolado.
Essa dissociação tem custo direto sobre a produtividade. A fragmentação obriga o empreendedor a dedicar tempo à conferência manual de recebimentos, à conciliação bancária e à correção de divergências entre vendas, estoque e caixa. Não se trata apenas de ineficiência operacional, mas de perda econômica. Enquanto o consumidor opera em tempo real, o varejo trabalha com atraso informacional. De acordo com a Febraban, o mobile banking registrou 95 bilhões de operações no segundo semestre de 2025, crescimento anual de 20%, sendo 55 bilhões de transações Pix via aplicativo, alta de 30%. A economia do consumo já é instantânea; a economia da gestão, não.
Esse descompasso se manifesta de forma visível no ponto de venda físico, onde a atenção do consumidor se tornou um ativo escasso. Cada segundo adicional de atrito no checkout aumenta o risco de desistência, insatisfação ou ruptura da experiência. Quando a maquininha opera de forma isolada, valores precisam ser redigitados, comprovantes conferidos e processos confirmados manualmente. Em ambientes integrados, a transação se torna praticamente invisível. O pagamento flui, o sistema reconhece o valor, atualiza o caixa e libera o atendimento seguinte. A redução do tempo de transação não melhora apenas a experiência do cliente, mas aumenta a capacidade de atendimento da loja em horários de pico, impactando diretamente o faturamento.
A fragmentação também distorce o acesso ao crédito. Instituições financeiras avaliam o risco do lojista com base em dados incompletos, porque faturamentos físico e digital não estão consolidados. Isso cria uma percepção artificial de volatilidade, eleva taxas de antecipação e limita capital de giro, especialmente para pequenos e médios negócios. Ao centralizar recebíveis físicos e digitais em uma única camada de gestão, como ocorre em modelos de pagamento unificado, o lojista constrói um histórico financeiro contínuo e coerente. O resultado é um score de crédito baseado na realidade total da operação, permitindo condições mais justas de financiamento e o uso do desempenho da loja física como lastro para a escala do e-commerce.
Os efeitos da desconexão se estendem à logística e ao pós-venda. A experiência omnichannel se rompe quando o cliente compra online e tenta trocar ou devolver o produto na loja física. Sem integração, o processo de estorno se torna burocrático, manual e sujeito a erro, afetando caixa e inventário. Em ambientes convergentes, o terminal físico reconhece a transação digital, permitindo trocas e devoluções em segundos, sem fricção operacional. A fluidez do processo preserva a experiência do consumidor e mantém a integridade financeira do negócio.
O mesmo vale para a gestão de estoque. Quando a venda no balcão não conversa com o estoque digital, o varejo passa a operar no escuro. Um produto vendido fisicamente pode continuar disponível no site, gerando cancelamentos, frustração do cliente e perda de credibilidade. A integração transforma cada venda física em uma atualização automática do inventário global. O estoque deixa de ser uma estimativa e passa a refletir a realidade em tempo real, reduzindo custos de oportunidade e otimizando o giro.
Além da eficiência operacional, a convergência inaugura uma nova camada de inteligência de dados no varejo físico. O e-commerce sempre teve vantagem ao entender o comportamento do consumidor, quem é, o que navega, o que abandona, quanto gasta. A loja física, por outro lado, operou historicamente como uma “caixa preta”. A unificação dos meios de pagamento permite que o balcão passe a gerar dados comportamentais comparáveis aos do ambiente digital. Torna-se possível identificar padrões de consumo, recorrência e jornada entre canais, conectando uma compra presencial a uma interação online anterior. O resultado é a possibilidade de personalizar ofertas, ativar estratégias de retenção e construir uma visão 360º do cliente.
A convergência, portanto, não é uma agenda de inovação estética, mas de racionalidade econômica. Integrar pagamentos físicos e digitais significa transformar cada transação em informação financeira acionável, capaz de atualizar caixa, estoque e histórico de vendas simultaneamente. Em um mercado que cresce em volume e complexidade, operar com dados parciais compromete margem, encarece crédito e limita escala. A fragmentação, antes tolerável, tornou-se incompatível com o estágio atual do sistema de pagamentos brasileiro.
O futuro dos pagamentos no Brasil não será definido por novos recordes diários ou pela multiplicação de meios de aceitação. Ele será decidido pela capacidade de alinhar a sofisticação da infraestrutura à realidade operacional do varejo. Sem essa integração, o país seguirá exibindo números impressionantes enquanto sustenta, nos bastidores, um modelo que consome tempo, capital e competitividade de quem mantém o consumo em movimento.
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