A oportunidade da transição energética

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Adary Oliveira – ex-presidente da Associação Comercial da Bahia; Dr. Engenheiro químico e professor

A transição energética é a passagem do uso de combustíveis fósseis para alternativas capazes de emitir menos gases de efeito estufa. Até a Segunda Guerra Mundial a principal fonte de energia e da indústria química era o carvão. A carboquímica era liderada pela Alemanha. O gás de síntese (CO + H2), obtido a partir do carvão, era a base da indústria química e da síntese de inúmeros produtos. A partir do fim da guerra os Estados Unidos mudaram os destinos do mundo e o petróleo e o gás natural passaram a ser a fonte mais importante da geração de energia.

Surgiu a petroquímica e inúmeros produtos que modificaram os hábitos: plásticos, elastômeros, fios têxteis, tensoativos, fertilizantes e muitos outros. A poluição gerada pelo uso desses combustíveis está ameaçando a vida no planeta e urge usar outras fontes de energia. Surge daí uma enorme oportunidade para o Brasil liderar a nova Era ampliando a produção e o uso de combustíveis limpos gerados a partir de fontes limpas de energia. Vejamos alguns exemplos:

O Brasil é líder mundial na produção de etanol a partir da cana de açúcar e poderá aumentar muito mais pela adoção da técnica agrícola de gotejamento subterrâneo quadruplicando a produtividade agrícola. Além do mais, já iniciou a produção desse álcool a partir de materiais ricos em amido como o milho e a mandioca. A produção do etanol a partir de resíduos agrícolas, contendo biomassa celulósica como o bagaço de cana, está sendo realizada com uso da hidrólise enzimática. Um outro bom exemplo é o da produção de álcool por fermentação da inulina contida no agave (sisal) conduzido na Bahia pela Shell, Unicamp e Senai-Cimatec. Ademais, nenhum país do mundo tem a experiência do Brasil no uso do álcool como combustível automotivo. Acrescente-se a isso a capacidade que o Brasil tem de produção dos bens de capital necessários para montagem das usinas.

A geração de energia limpa no Brasil é superior a 93% do total sendo mais da metade de energia hidrelétrica. A energia solar já ultrapassou aos 50 GW e a eólica 31 GW, quase seis vezes a produção da hidrelétrica de Itaipú. O cenário climatológico é favorável. Temos uma insolação alta, o que puxa a produção de energia solar, e ventos contínuos, principalmente à noite. O Sistema Interligado Nacional permite uma melhor distribuição da energia gerada, outra vantagem enorme.

Com toda essa abundância de energia de fontes limpas e de fontes renováveis o Brasil poderia incrementar a produção de hidrogênio verde, através da eletrolise da água, e de amônia verde, para seu consumo e para exportação, passando a ser o grande supridor mundial de alimentos, que já é, e de energia limpa. A transição energética que já começou no mundo em poucos anos vai provocar a substituição parcial do petróleo e do gás natural por fontes limpas e fontes renováveis e o Brasil não pode deixar escapar essa oportunidade. O projeto de hidrogênio verde que a Unigel estava implantando em Camaçari, na Bahia, o maior projeto do mundo, teve de ter sua construção adiada por força da paralisação da fábrica de fertilizantes nitrogenados que ela opera, devido ao peço elevado do gás natural. Isso não deveria ocorrer. Se acontecimentos semelhantes continuarem perderemos o bonde da história mais uma vez.

A troca da geração de energia gerada por combustível de origem fóssil por energia gerada de forma limpa deve também ser incrementada. Um bom exemplo é o que as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo estão fazendo colocando ônibus elétricos e sistemas de transporte público que utilizam energia limpa, contribuindo para a redução da poluição e do uso de diesel.

Vale o registro de que a produção de biodiesel a partir de óleos vegetais e gordura animal continua a crescer, com iniciativas para aumentar a participação do biodiesel na matriz energética do país. Outro bom exemplo é o Projeto Macaúba que a Acelen, dona da Refinaria de Mataripe, está executando na Bahia, com orçamento de R$ 12 bilhões, para a produção de diesel verde e combustível de aviação. Um outro projeto da Acelen é de construção de parque solar fotovoltaico em Irecê, na Bahia, para suprir de energia elétrica a Refinaria de Mataripe.

Fazendo agora um pouco de graça, para temperar um pouco a aridez do tema, pode-se afirmar que não se precisa de muitas letras para se fazer muito. Da mesma forma que o maestro Tom Jobim pode compor o Samba de Uma Nota Só, para alegria nossa e do mundo, poderemos agora, usando apenas sol, solo e a força de Éolos produzir a energia dessa nova Era, tirando o mundo da encrenca em que se meteu.

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