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Inflação acelera para 0,82% em setembro e reacende debate sobre os rumos da taxa Selic
Com a inflação acumulada em 12 meses ultrapassando o teto da meta, analistas de mercado apontam energia elétrica, alimentos e serviços como os principais vilões e preveem cautela acrescida nas decisões do Banco Central.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de setembro encerrou o período com alta de 0,82%, revertendo a deflação do mês anterior e superando a maior parte das projeções do mercado financeiro. Com o resultado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o indicador acumulado em 12 meses atingiu 4,58%, ultrapassando o teto do intervalo de tolerância da meta de inflação (estabelecido em 4,50%).
O desempenho em todos os nove grupos pesquisados indicou uma disseminação das pressões de preços, impulsionada principalmente pelo custo da energia elétrica, condições climáticas adversas na agricultura e a rigidez do setor de serviços.
Fatores pontuais e pressões de oferta e demanda
O grupo Habitação apresentou a maior variação do mês (+2,31%), fortemente impactado pelo reajuste na energia elétrica residencial (+7,98%). A alta refletiu o encerramento do efeito temporário do Bônus de Itaipu — que havia aliviado as contas em agosto —, a aplicação de bandeiras tarifárias e reajustes locais.
Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, destaca que a abrangência das baixas e altas sinaliza um cenário mais desafiador:

“A principal pressão veio do grupo Habitação, que subiu 2,31% e respondeu por 0,35 p.p. do índice cheio. O destaque absoluto foi a energia elétrica residencial […], refletindo o fim do efeito temporário do Bônus de Itaipu. […] O resultado reforça um cenário de inflação ainda resistente e menos favorável para uma flexibilização relevante da política monetária no curto prazo.”

Na avaliação de Roberto Luis Troster, coordenador do Cefeb/Fipe, além dos fatores tarifários energéticos, que possuem efeito temporário na medição, choques climáticos e custos estruturais exerceram papel determinante no período:”O clima também pesou no resultado. Seca e queimadas reduziram a oferta e pressionaram os preços de alimentos in natura: tomate (+37,76%), batata-inglesa (+24,07%) e cebola (+10,14%). A inflação de serviços permanece rígida. Em um ambiente de taxa de desocupação em mínimas históricas e ganhos salariais reais contínuos, os núcleos mais sensíveis à mão de obra intensiva resistem a desacelerar.”

Leitura da composição e tendências dos núcleosEmbora o comportamento dos preços de proteínas e lácteos tenha trazido algum alívio parcial em certos segmentos da alimentação, o avanço da média dos núcleos inflacionários — métrica que exclui ou suaviza itens mais voláteis — acendeu o alerta do mercado para a persistência das pressões.Gabriel Pestana, economista da Genial, pontua que a composição do índice revelou gargalos tanto pelo lado da oferta quanto da demanda:”Apesar de o número ter vindo como esperávamos, a composição foi menos favorável. O alívio nos alimentos foi compensado por pressões em serviços e combustíveis, indicando que a inflação segue enfrentando importantes obstáculos tanto nos fundamentos de demanda quanto oferta. […] As medidas que procuram captar a tendência da inflação também aceleraram, reforçando a percepção de que as pressões mais persistentes continuam presentes.”

Na mesma linha, Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos, aponta para o fim de uma janela de leitura mais branda para o índice cheio:”A abertura do setor de serviços veio pressionada de forma disseminada […]. No geral, o indicador corrobora o encerramento da janela de alívio do IPCA corrente, indicando que a fase mais benigna ficou para trás e que a dinâmica inflacionária do quarto trimestre de 2026 será mais complexa.”

Dilema da Selic e o cenário para o Comitê de Política MonetáriaA aceleração do IPCA impõe novos questionamentos sobre o ritmo de condução da política monetária pelo Banco Central e sobre a viabilidade de novos cortes na taxa básica de juros (Selic). Enquanto parte dos economistas projeta uma pausa iminente no ciclo de reduções, outros observam fatores externos e fiscais que podem influenciar as próximas reuniões do Copom.

Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, avalia as forças divergentes que atuam sobre o câmbio e a taxa de juros:”O mercado está olhando para dois lados: a inflação e as eleições. A queda recente do dólar tem sido associada à expectativa de mudança de poder e à possibilidade de uma agenda econômica com maior responsabilidade fiscal […]. Um dólar mais baixo pode ajudar a inflação, mas não faz milagre. […] Apenas se a inflação continuar pressionada e as expectativas piorarem, poderá reduzir o ritmo dos cortes ou até interromper o ciclo. O recado é: o mercado quer juros menores, mas o IPCA ainda não dá tranquilidade ao Banco Central.”

Por outro lado, economistas que vislumbram maior rigor monetário diante do estouro do teto da meta veem menor margem de manobra para afrouxamentos adicionais nas próximas reuniões. Roberto Luis Troster antecipa a possibilidade de alteração na postura da autoridade monetária:”O resultado reforça uma postura mais cautelosa do Copom e reduz o espaço para novos cortes na Selic. Na reunião de 3 e 4 de novembro, é razoável esperar uma pausa no ciclo de redução dos juros. O quadro também contribui para manter o aperto nas condições de crédito.”

Com projeções para o IPCA do ano corrente variando acima da meta oficial, as atenções do mercado seguem voltadas para os desdobramentos dos núcleos de serviços, os impactos dos combustíveis sobre a cadeia produtiva e as sinalizações das autoridades financeiras nos próximos meses.

Foto Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

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