Isadora Oliveira, advogada eleitoralista, consultora em procuradoria municipal e legislativa
As eleições de 2026 deixaram um dado que, na minha avaliação, não pode ser tratado apenas como estatística. Em 2022, a Bahia registrou 569 candidaturas femininas. Em 2026, foram inicialmente 417: 152 mulheres a menos na disputa, uma redução de aproximadamente 26,7%.
É verdade que o número total de candidaturas também caiu e que a participação feminina cresceu proporcionalmente. Ainda assim, considero preocupante que menos mulheres tenham chegado às urnas justamente quando tanto se discute a ampliação da participação feminina na política.
O resultado reforça essa preocupação. Em 2022, elegemos 10 deputadas estaduais e cinco federais. Em 2026, permanecemos com exatamente 10 mulheres entre as 63 cadeiras da Assembleia Legislativa e cinco entre as 39 vagas da Bahia na Câmara dos Deputados. Para o Senado, novamente nenhuma mulher. Quatro anos depois, nenhuma cadeira feminina a mais.
Na minha visão, o problema está muito além da quantidade de candidaturas. Não basta garantir que mulheres tenham seus nomes na urna. É preciso discutir financiamento, estrutura partidária, visibilidade, competitividade e violência política de gênero. Ter uma candidatura registrada não significa ter condições reais de competir.
E há algo que os números não mostram: quantas mulheres desistiram antes mesmo de serem candidatas? Quantas entenderam que o custo pessoal, profissional e emocional de ocupar a política seria alto demais?
Acredito que a sub-representação feminina não nasce no dia da eleição. Ela é construída muito antes, nas barreiras que dificultam a entrada e a permanência das mulheres nos espaços de poder.
Por isso, para mim, discutir participação feminina não é reivindicar privilégio nem simplesmente cumprir cotas. É discutir a qualidade da nossa democracia. Uma democracia em que as mulheres participam da escolha do poder, mas continuam sendo minoria no momento de exercê-lo.
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