Um novo ciclo para o cacau da Bahia

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Josalto Alves – jornalista e advogado

A cacauicultura baiana viveu nos anos 1970/80 o “ciclo do ouro negro”, uma das maiores fases econômicas da história do estado. Produzia cerca de 390 a 400 mil toneladas/ano, representava 90% da produção nacional e gerava mais de 200 mil empregos diretos. À época, o Brasil era o segundo maior produtor mundial, superado apenas pela Costa do Marfim.

Aí, em 1989, surgiu a praga da vassoura-de-bruxa (1989–2000) e instalou-se grande crise. A situação mudou radicalmente. A produção caiu de 400 mil toneladas para cerca de 96 mil toneladas no final dos anos 1990. Centenas de fazendas foram à falência, desemprego em massa, pobreza e migração. O impacto econômico foi gigantesco, com perdas superiores a 10 bilhões de dólares.

Nos últimos anos houve recuperação gradual. A Bahia voltou a disputar a liderança nacional com o Pará, mas a produção está muito abaixo do auge dos anos 1980, cerca de 139 mil toneladas, um terço do que produzia no auge.

Mas especialistas do setor agrícola analisam que o estado  pode estar caminhando para um “segundo ciclo do cacau”. Eles destacam que desde a crise provocada pela vassoura-de-bruxa, a pesquisa agrícola evoluiu consideravelmente e a Ceplac, apesar da perda do protagonismo, desenvolveu clones de cacaueiro mais resistentes às pragas, sistemas de manejo mais eficientes e técnicas de recuperação de áreas degradadas, permitindo aumentar a produtividade.

Estudos recentes indicam que as mudanças climáticas podem afetar a produção de cacau na África Ocidental, região que hoje domina o mercado mundial com cerca de 70% do cacau do mundo.  Pesquisas indicam que o aumento das temperaturas e alterações no regime de chuvas podem reduzir drasticamente as áreas adequadas para o cultivo de cacau nesses países, e que até o ano de 2050 grande parte das áreas atuais poderá perder condições ideais de cultivo.

Esse contexto valorizou o cacau brasileiro, aplaudido em concursos internacionais.

Focando na produção de cacau de qualidade para atender o crescimento do mercado de cacau fino e chocolate premium, municípios como Ilhéus, Uruçuca e Itacaré já são reconhecidos internacionalmente pela produção de cacau de origem, chocolate artesanal e produtos de alto valor agregado.

Importante lembrar que a Bahia possui um diferencial ambiental importante: o sistema cabruca. O cacau é cultivado sob a sombra da Mata Atlântica, modelo de produção sustentável que preserva a floresta, protege a biodiversidade, atende às exigências ambientais do mercado europeu e confere ao cacau baiano vantagem competitiva.

Outro fator considerado é a expansão da demanda mundial por chocolate. Mercados como a China e Índia têm aumentado o consumo, e a tendência é o crescimento da demanda mundial por cacau nas próximas décadas.

Alguns estudos indicam que o Brasil poderia dobrar a produção de cacau até 2035, alcançar 300 mil toneladas/ ano e voltar a ser um dos principais produtores globais e recuperar o protagonismo no mercado internacional.

Ou seja, a Bahia e o Pará têm potencial para ampliar a produção, e transformar o cacau em um dos pilares do agronegócio brasileiro.

O desafio da Bahia não é tanto expandir área, mas recuperar produtividade das lavouras antigas, que tem mais de 40 ou 50 anos, sofreram impacto da crise da vassoura-de-bruxa, e precisam de renovação ou replantio.

As cidades do sul do estado continuam importantes, mas outras regiões do estado vão se firmando como produtoras, representando novas fronteiras de expansão do cacau.

Exemplo disso são os territórios do Médio Rio de Contas e Vale do Jequiriçá que respondem, juntos por 24% da produção de cacau no estado, com peso relevante na economia agrícola dos dois territórios, gerando renda e ocupação, formando um verdadeiro “cinturão do cacau” no interior da Bahia. O Médio Rio de Contas é um dos mais importantes polos emergentes do cacau baiano, com quase 100 mil hectares de área plantada (18% da área cultivada do estado), forte presença da agricultura familiar e alta produtividade em comparação com outras regiões, com destaque para Ipiaú, Itagibá, Gandu, Ibirataia e Nova Ibiá.

No Vale do Jequiriçá a produção é menor, mas significativa, cerca de 7,6 mil toneladas/ano. Caracteriza-se pela presença de pequenos agricultores e cooperativas, crescimento de cacau de qualidade e produção artesanal de chocolate, em especial nos municípios de Mutuípe, Jiquiriçá, Ubaíra, Laje e Amargosa.

O mapa da cacauicultura no estado vai ganhando novos contornos, com o surgimento da nova fronteira agrícola do cacau no oeste da Bahia, com ênfase no cerrado irrigado da região de Barreiras, Luís Eduardo Magalhães, São Desidério, Riachão das Neves e Correntina, com uso de agricultura altamente tecnificada.

A irrigação por pivô central, uso de clones de cacau de alta produtividade e o  manejo intensivo semelhante ao usado em soja, milho e algodão, está permitindo a  produção de cacau em regiões que antes não eram consideradas adequadas para a cultura.

Resultado: produtividade por hectare até cinco vezes maior que nas áreas tradicionais do sul da Bahia.

Em suma, os produtores, grandes e pequenos, estão trabalhando com afinco para a expansão da cacauicultura, mas precisam da ação governamental.

Precisam de assistência técnica, principalmente os agricultores familiares, e linhas de crédito para investimentos. Precisam que o Plano Safra destine recursos específicos para o setor.

Precisam da transformação da Ceplac em Instituto Nacional do Cacau, com orçamento federal, reposição de pesquisadores, continuidade das pesquisas, e que as metas do plano ‘Inova Cacau 2030’ não sejam negligenciadas.

Precisam que o Ministério da Agricultura revogue definitivamente a Instrução Normativa 125/2021, que permite a entrada no Brasil do cacau africano sem ser tratado com Brometo de Metila, única substância eficaz no combate a pragas quarentenárias como Phytophthora megakarya e Striga spp, doenças presentes em território africano.

É urgente a necessidade de promover políticas de preço mínimo e mecanismos de proteção contra a volatilidade do mercado internacional, assegurando renda mínima ao produtor, em sua maioria agricultores familiares.

Também é fundamental integrar a cacauicultura à agenda ambiental e climática, reconhecendo e remunerando os serviços ecossistêmicos prestados pelos sistemas agroflorestais.

As regras do regime tributário de drawback para a importação de cacau precisam ser revistas, com seriedade. Há uma semana o governo federal editou a MP 1.341/2026 reduzindo de dois anos para seis meses o prazo para que as indústrias processadoras importem e estoquem amêndoas com isenção de tributos, (Imposto de Importação, IPI, PIS/Pasep-Importação e Cofins-Importação) pelo regime de drawback.

Diz o governo que o objetivo é proteger o produtor brasileiro, mas não adota uma decisão final, pois a MP entra em vigor ao ser editada, e se não for transformada em lei pelo Congresso Nacional em 120 dias perde a eficácia, gerando insegurança jurídica.

Em fevereiro, o governo suspendeu, temporariamente, a importação de amêndoas de cacau da Costa do Marfim devido a riscos fitossanitários, considerando que o cacau de países africanos, sem autorização sanitária, seria misturado ao da Costa do Marfim. 

Segundo o Planalto, ”a suspensão será mantida até que a Costa do Marfim garanta que os envios ao Brasil não contenham cacau produzido em países sem autorização sanitária”. (Não sei se rio ou choro).

Não duvido que as empresas que fazem a moagem das amêndoas de cacau, Cargill, Barry Callebaut e Olam Food Ingredients, estejam com grande estoque armazenado, considerando a quantidade de navios que aportaram em Ilhéus, principal polo industrial do cacau no Brasil.

Ah, e no dia 26 deste mês comemora-se o ‘Dia Nacional do Cacau’. Comemorar? Sim!

Mas esta data deve ser um chamado à ação. A Bahia tem no cacau não só uma tradição, mas uma oportunidade concreta de desenvolvimento sustentável.

E o Brasil precisa decidir se continuará sendo um importador de um produto que pode produzir com excelência, ou se voltará a assumir o protagonismo que sua história e seu imenso potencial permitem.

Mais do que celebrar o cacau, é hora de reconstruir e reafirmar sua grandeza!

Foto Divulgação

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