Adary Oliveira, ex-presidente da Associação Comercial da Bahia, engenheiro químico e professor (Dr.)
O conflito entre a coalizão Estados Unidos da América (EUA) e Israel contra o Irã tem ocupado os noticiários e não deixa de ser uma preocupação para manutenção da Paz Mundial, começando a pesar no bolso dos consumidores do mundo inteiro com o aumento do preço do petróleo no mercado internacional. A interrupção do fluxo de navios petroleiros no Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã, fez a cotação ultrapassar os US$ 80 por barril. Se a Europa e a China passarem a receber menos petróleo reduzirão o refino, o que leva a uma diminuição da oferta de gasolina e óleo diesel no mercado interno deles.
Atualmente, o Brasil tem um déficit de produção de derivados do petróleo de aproximadamente 650 mil barris por dia (bpd). O atraso na construção de uma Refinaria no Estado de Pernambuco e o cancelamento dos projetos programados para os Estados de do Maranhão e Ceará, anunciados pelo Governo Federal, tem a ver com esse déficit.
O Brasil tem importado a gasolina dos EUA e o óleo diesel da Rússia. Se os Estados Unidos socorrerem os países da Europa, preferencialmente, e a Rússia der maior atenção à China, o que é provável, poderá haver desabastecimento de gasolina e óleo diesel no Brasil.
No curto prazo, a solução para esse problema, pelo menos parcialmente, é a adição de mais biodiesel no óleo diesel e de mais etanol na gasolina, além de maior disponibilização de álcool para consumo interno. No longo prazo, o aumento da oferta de óleo diesel e do etanol, poderá ser obtida com o aumento da produção de óleo vegetal e de álcool.
As soluções de longo prazo fortalecem dois projetos que estão sendo desenvolvidos no Nordeste. O Projeto Macaúba tem por principal objetivo a produção de óleo vegetal extraído da macaúba. A empresa encarregada do projeto é a Acelen Renováveis, subsidiária da Mubadala Capital que é também proprietária da Refinaria Mataripe, o maior contribuinte de ICMS da Bahia.
A macaúba é uma planta nativa do Brasil, se assemelha ao ouricuri e tem o mais alto poder energético entre as oleaginosas. No total deverão se plantados 180 mil hectares de macaúba, sendo que 36 mil serão plantados em parceria com fazendeiros e pequenos agricultores, de agricultura familiar e de pequenos e médios produtores.
Serão aproveitadas áreas de pastagens consideradas degradadas, isto é, com baixa capacidade produtiva devido a redução da cobertura vegetal e presença de plantas invasoras, inclusive capoeiras, sem comprometer a produção agrícola tradicional de cada lugar. Os agricultores poderão continuar plantando feijão, mandioca, milho e outros alimentos e as pastagens remanescentes serão aprimoradas por meio de assistência técnica.
Outro, o Projeto BRAVE, liderado pela Shell em parceria como SENAI-CIMATEC e UNICAMP, visa transformar o sisal (agave) em uma fonte viável de biomassa para a produção de etanol (fermentação da inulina), biogás e outros bioprodutos. O Brasil é o maior produtor mundial de sisal e a Bahia produz cerca de 80%. Os restantes 20% são produzidos na Paraíba, tudo no semiárido.
Como tudo que dá para rir dá para chorar, parece que a guerra poderá trazer benefícios para o Nordeste. Pode ser que sim, pode ser que não.
Mas não custa nada recordar que após a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial o Brasil cedeu áreas para apoio das tropas aliadas. Já existia no Rio Grande do Norte o Campo de Aviação de Paramirim o que deu origem à Base Aérea de Natal. Aí foi construída, em proporções muito maiores a Base Americana, também denominada de Base de Paramirim, ou Paramirim Field. A partir daí saia todo o apoio às tropas aliadas no Continente Africano. A cessão de áreas pelo governo brasileiro não parou aí.
Na Bahia foi construída a Base Aérea de Salvador (05/11/1942) com o Aeroporto de Ipitanga, em São Cristóvão. Também na Bahia foi construída a Base Baker, de Fuzileiros Navais, e uma estrada ligando a Base Baker ao Aeroporto, hoje conhecida com Estrada Velha do Aeroporto. Na mesma ocasião foram construídos os campos de pouso de Barreiras e de Caravelas. A história revela que quando Getúlio Vargas negociou com os norte-americanos os Acordos de Washington a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), o Estado Novo preferiu localizá-la no Rio de Janeiro, no Sudeste. Poderia, em troca, ter vindo para o Nordeste.
Talvez pensando nisso o governo reflita que os projetos da Shell e da Mubadala representem uma grande oportunidade para o Nordeste. Não que seja necessário receber doações do exterior, mas de receber maior atenção por parte do governo brasileiro.
Deixar de importar gasolina e óleo diesel, substituir combustível fóssil por produtos renováveis já produzidos no Brasil e resolvendo o problema de aproveitamento do semiárido, é que não pode ser desprezado. Quem sabe se isso não pode acontecer, ou pelo menos figurar nos propósitos escritos nas campanhas políticas? Não custa nada sonhar, pode ser que sim, pode ser que não.
Foto Site Café com Informação
