Especialistas comentam decisão do BC de manter a Selic em 15%

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Especialistas do mercado financeiro se pronunciaram sobre a decisão do Copom em manter a taxa Selic em 15% ao ano. A decisão já era aguardada pelo mercado. Para Felipe Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, “O Copom manteve a taxa Selic em 15%, conforme esperado. Não houve alteração no balanço de riscos da autoridade monetária para o cenário de inflação. Contudo, o comunicado abriu espaço para corte de juros em março ao salientar que “em se confirmado o cenário esperado” o BC antevê espaço para iniciar a flexibilização monetária na próxima reunião, ainda que vá manter a taxa básica em patamar adequadamente restritivo para assegurar a convergência da inflação à meta”.

Para Raphael Vieira, co-head de Investimentos da Arton Advisors, “A manutenção da Selic em 15% era amplamente esperada, mas o comunicado traz uma inflexão relevante: o Copom passa a sinalizar, de forma explícita, a possibilidade de início do ciclo de flexibilização já na próxima reunião, ainda que sob forte condicionalidade. O Banco Central reconhece a desaceleração da atividade e o arrefecimento gradual da inflação, mas segue incomodado com a desancoragem das expectativas e com a resiliência da inflação de serviços, especialmente em um mercado de trabalho ainda apertado. O discurso permanece conservador, refletindo tanto incertezas externas — com destaque para a política econômica dos EUA e o cenário geopolítico — quanto riscos domésticos ligados à política fiscal e ao câmbio. Na prática, o Copom tenta equilibrar duas forças: de um lado, há espaço técnico para começar a cortar juros; de outro, falta confiança para acelerar esse movimento sem comprometer a credibilidade do regime de metas. O tom do comunicado indica que esse início de processo é mais uma decisão de gestão de risco do que uma convicção plena de que a inflação já está controlada”.

José Áureo Viana, Economista, assessor e sócio da Blue3 Investimentos, analisa que o comunicado veio com uma sinalização bem mais nítida sobre o próximo passo. “A frase que resume o documento é: “o Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião”. Ao mesmo tempo, faz questão de reforçar o limite dessa abertura ao dizer que “manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”. Na prática, março entra como cenário-base, mas condicionado aos dados. O texto também deixa claro que, quando o ciclo começar, tende a ser gradual. O Copom afirma que “o compromisso com a meta impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo”, ou seja, o mercado pode até discutir o tamanho do primeiro corte, mas o Banco Central quer evitar a leitura de que isso vira um “piloto automático”. Um detalhe importante para essa interpretação é a mudança de tom em relação aos comunicados anteriores, com a retirada de uma linguagem mais rígida sobre juros elevados por muito tempo, o que reforça a leitura de abertura, sem abandonar cautela. Para a próxima reunião, a expectativa que se forma a partir do próprio texto é de corte, com o debate ficando mais concentrado entre algo como 0,25 p.p. e 0,50 p.p., a depender de como inflação, expectativas e atividade confirmem o cenário até lá. Em outras palavras, o Copom deu um passo à frente na sinalização, mas deixou igualmente claro que o ritmo será decidido reunião a reunião. A partir daqui, o comunicado tende a deslocar o foco do mercado do “se” para o “como” do ciclo de cortes, e isso normalmente aparece primeiro na curva de juros, com fechamento de prêmios se os próximos dados confirmarem o cenário descrito pelo Copom”, observa

Para Eduardo Tellechea Cairoli, CEO da Privatto Multi Family Office, a mensagem é clara: o BC prefere errar pelo excesso de cautela a colocar em risco a estabilidade conquistada. “O avanço do ciclo de queda dos juros dependerá não apenas da dinâmica inflacionária, mas de sinais mais consistentes de compromisso com a sustentabilidade fiscal”, afirma.

A manutenção da Selic prolonga os efeitos de um custo de capital elevado. Empresas mais alavancadas tendem a sentir maior pressão sobre margens e investimentos, enquanto o consumo permanece moderado — especialmente em setores mais sensíveis ao crédito. Ao mesmo tempo, o ambiente de juros altos segue favorecendo estratégias conservadoras. “Renda fixa continua oferecendo retornos reais relevantes no pós DI, mas apresentando prêmios muito acima da média nos IPCA+. Para o investidor, é um momento que exige disciplina: equilíbrio entre liquidez, proteção e oportunidades de médio e longo prazo”, destaca Cairoli. O câmbio permanece como variável crítica. “É importante monitorar a relação real-dólar: cada 10% de oscilação pode representar algo próximo de 1 ponto percentual no IPCA. A trajetória do câmbio pode acelerar ou restringir o espaço para cortes”, conclui.

Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil

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