O agronegócio brasileiro deve enfrentar um 2026 desafiador, marcado por aumento das recuperações judiciais e maior pressão financeira sobre produtores rurais. O cenário reflete uma combinação de fatores estruturais, como alto endividamento, juros elevados e margens reduzidas nas últimas safras.
Nos últimos anos, o setor registrou crescimento expressivo nos pedidos de recuperação judicial, impulsionado tanto pelas dificuldades financeiras quanto pelo reconhecimento legal do direito de produtores rurais acessarem esse mecanismo. A mudança ampliou o uso da ferramenta como alternativa para reorganização de dívidas.
De acordo com estimativas, o endividamento do agronegócio brasileiro atingiu cerca de R$ 188 bilhões ao final de 2025, evidenciando a dimensão do desafio enfrentado pelo setor.
“O aumento das recuperações judiciais no agro não é um fenômeno isolado, mas resultado direto da deterioração das condições financeiras, especialmente após safras com margens mais apertadas, como as de soja e milho”, afirma Claudio Montoro, advogado especialista em recuperação judicial.
Para 2026, a tendência é de continuidade da pressão sobre os custos de produção. O encarecimento dos fretes, impulsionado pelo preço do diesel, e a possível escassez de insumos estratégicos, como ureia, devem impactar diretamente o planejamento da próxima safrinha de milho.
Além disso, a crescente demanda por fertilizantes como nitrogenados, enxofre e fosfatados tende a elevar ainda mais os custos operacionais, especialmente no plantio da safra de soja, previsto entre outubro e dezembro.
O cenário também preocupa o sistema financeiro. Segundo o CFO do Banco do Brasil, Geovanne Tobias, a inadimplência no agronegócio impactou negativamente os resultados da instituição, mesmo com a implementação de programas de renegociação de dívidas.
Iniciativas como o Regulariza Dívidas Agro e o BNDES Liquidação de Dívidas Rurais, criadas pela MP 1.314/2025, somaram R$ 22,6 bilhões em contratos e beneficiaram mais de 15 mil produtores, mas não foram suficientes para conter o avanço da inadimplência.
Diante desse contexto, a expectativa é de retração na oferta de crédito ao setor, o que tende a agravar ainda mais a situação financeira dos produtores e ampliar a busca por soluções judiciais.
No campo jurídico, a Lei 14.112/2020 representou um marco ao consolidar o direito de produtores rurais pessoas físicas acessarem a recuperação judicial e reflete os entendimentos do passado nesse sentido, provenientes de decisões como a do caso do Grupo JPupin, no Superior Tribunal de Justiça.
No entanto, há limitações importantes. Nem todas as dívidas podem ser incluídas no processo, especialmente aquelas relacionadas a crédito rural tradicional ou contraídas recentemente para aquisição de propriedades, o que exige uma análise detalhada da estrutura do passivo.
“A recuperação judicial pode ser uma ferramenta relevante, mas não resolve todos os problemas. É fundamental entender quais dívidas podem ser renegociadas e estruturar bem o processo”, destaca Montoro.
Além disso, produtores que optam por esse caminho precisam avançar em governança e transparência, com a obrigação de apresentar relatórios mensais ao administrador judicial, permitindo o acompanhamento público da situação financeira.
Apesar das adversidades, o agronegócio segue sendo um dos pilares da economia brasileira. Em 2023, o setor representou 23,8% do PIB nacional, movimentando R$ 2,58 trilhões e empregando mais de 15 milhões de pessoas.
Diante do cenário adverso, especialistas apontam que a combinação entre uso estratégico dos instrumentos legais e uma gestão financeira mais rigorosa será essencial para garantir a sustentabilidade do setor nos próximos anos.
“Mais do que recorrer à recuperação judicial, o produtor precisa entender profundamente sua estrutura de endividamento e adotar uma gestão financeira mais disciplinada. Esse será o diferencial entre quem consegue atravessar a crise e quem fica pelo caminho”, conclui Claudio Montoro.
Foto Divulgação
