Mesmo com a primeira redução da Selic por parte do Banco Central em março, o percentual de famílias brasileiras com dívidas a vencer atingiu 80,4% em março de 2026, renovando o maior nível da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic). O índice, divulgado nesta terça-feira (7) pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), superou os 80,2% de fevereiro. O novo recorde reforça o alerta da Confederação para os próximos meses, tendo em vista os efeitos do conflito no Oriente Médio e as consequências da alta do petróleo no bolso do consumidor.
O cenário já é reconhecido pelo governo federal como um problema que precisa de solução imediata, enquanto a CNC destaca que o endividamento continuará avançando até os efeitos da flexibilização da política monetária chegarem efetivamente ao consumidor final. Somado aos juros altos, a alta dos preços do diesel e combustíveis em geral tem gerado incerteza inflacionária. Esse aumento logístico repercute nos preços das mercadorias, reduzindo o poder de compra e forçando o uso de crédito para despesas básicas.
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Para o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, o cenário exige atenção às necessidades econômicas do País para estabilizar e logo reverter o quadro de endividamento geral: “A elevada taxa Selic é, há meses, um desafio para quem empreende e para quem consome”, afirma. “A redução gradativa dos juros começou, mas ainda vemos um aumento do nível de famílias endividadas, pois levaremos meses até que o alívio do aperto monetário faça efeito”, completa Tadros, observando ainda que a conjuntura geopolítica mundial deste 2026 é marcada pela incerteza. “Neste cenário, é imprescindível que as autoridades sinalizem melhores condições de crédito e mais previsibilidade ao setor produtivo, pois dele depende a dinâmica de crescimento que beneficia a vida da população.”
Inadimplência estável
Apesar do volume recorde de endividados, os índices de atraso, que são complicadores da situação por gerarem juros ao consumidor, apresentaram sinais de estabilização.
O percentual de dívidas em atraso permaneceu em 29,6% em março, estável em relação a fevereiro, mas ainda acima dos 28,6% de março de 2025, evidenciando o efeito negativo do ciclo de alta da Selic na maior parte do ano passado. Dentro dessa estatística, o grupo que declara não ter condições de pagar as contas atrasadas recuou para 12,3% (queda de 0,3 p.p. no mês), um sinal positivo de responsabilidade.
No aspecto subjetivo da pesquisa, o total de pessoas que se consideram “muito endividadas” teve ligeira melhora, caindo para 16,0%. Já a média da renda comprometida com dívidas caiu para 29,6%, valor inferior aos 29,9% registrados um ano antes. O recorde negativo da inadimplência foi alcançado em setembro e em outubro de 2025, com 30,5% dos endividados.
Impacto por faixas de renda
O avanço do endividamento foi generalizado, mas liderado pelas famílias de maior renda, que preferem o crédito ao uso de capital próprio. Para aqueles que ganham mais de 10 salários mínimos, o índice chegou a 69,9% em março.
Já entre as famílias de menor renda (até 3 salários mínimos), houve um controle mais rigoroso da inadimplência: o percentual de dívidas em atraso caiu de 38,9% em fevereiro para 38,2% em março. Este grupo, entretanto, permanece mais vulnerável à alta dos preços de mercadorias derivadas dos custos de energia e combustíveis.
“Vemos uma nova rodada de reajuste das expectativas de inflação para os próximos meses, fenômeno que, se confirmado, pressionará desproporcionalmente o orçamento das famílias de renda mais baixa”, avalia Fabio Bentes, economista-chefe da CNC.
Foto José Cruz/Agência Brasil/Arquivo
