Dinalva Melo: a voz que abre caminhos para a literatura baiana na FLICA

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Fábio Costa Pinto – Jornalista, Membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), e Conselheiro da Fundação Hansen Bahia


Uma feira literária não se constrói apenas com grandes nomes, lançamentos e encontros com escritores consagrados. Sua verdadeira dimensão também está na capacidade de abrir portas para quem escreve, muitas vezes longe dos grandes centros editoriais, e deseja encontrar leitores para suas histórias. É nesse espaço de reconhecimento e oportunidades que a professora Dinalva Melo assume um papel de destaque na 14ª Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA).


Mestre em Educação, especialista em Gestão Universitária e vice-presidente do Conselho Estadual de Educação, Dinalva está à frente da curadoria da Casa dos Autores e das Autoras Baianas, iniciativa que, nesta edição, ganhou ainda mais força com o projeto Vozes da Bahia, realizado em parceria com a Fundação Pedro Calmon (FPC), vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA).


O projeto selecionou 30 autores e autoras, além de seis editoras baianas, para integrar a programação da FLICA, criando oportunidades para que escritores, ilustradores, quadrinistas, cordelistas e profissionais da criação literária apresentem seus trabalhos diretamente ao público. Mais do que oferecer um espaço físico, a iniciativa representa uma oportunidade concreta de reconhecimento, circulação e valorização de talentos que expressam a diversidade cultural dos territórios baianos.


Para Dinalva, o significado dessa conquista vai muito além da programação de uma feira. Ela acredita que o público precisa conhecer a riqueza e a diversidade da produção literária da Bahia, mas entende que, durante muito tempo, faltaram condições para que muitos autores chegassem a esses espaços.


“Nas edições anteriores, os autores iam por conta própria, sem nenhum tipo de apoio, e isso acabava sendo uma limitação. Com o apoio da Fundação Pedro Calmon e da FLICA, através do edital, eles estão tendo a locomoção e a alimentação, o que já representa um suporte substancial para que esse objetivo seja alcançado”, destaca.


A curadora acredita que a feira precisa ser também um espaço de formação, reconhecimento e pertencimento. “Conseguimos encontrar uma forma de fazer do evento um lugar de educação artístico-literária, reconhecendo o autor da casa, da cidade. Acho que avançamos grandiosamente e isso me deixa extremamente feliz”, afirma.


Quando o livro encontra o leitor


A importância desse trabalho pode ser percebida nas histórias que chegam à Casa dos Autores e das Autoras Baianas. São experiências, pesquisas, memórias e narrativas que revelam diferentes maneiras de compreender a Bahia e o mundo.


Na sexta-feira (6), a programação mostrou a diversidade dessa produção. De Euclides da Cunha, o dramaturgo, diretor teatral e escritor Carlos Carneiro levou à FLICA personagens e lembranças que mantêm viva a memória de Canudos. Em Mané Vermei, um sertanejo de Canudos, apresenta um descendente dos sobreviventes da guerra, inspirado em uma pessoa real, que conhece os sinais da natureza e preserva os saberes populares da Caatinga.


Em outra obra, Entre a Cruz e a Espada, mistura história e ficção para narrar o romance entre Maria Rosa, seguidora de Antônio Conselheiro, e um capitão do Exército, personagens situados em lados opostos do conflito.


Ao falar sobre sua produção, o escritor chama atenção para a necessidade de dar espaço às vozes historicamente esquecidas. “Mané Vermei traz várias vozes e vozes que permaneciam no anonimato, que não eram ouvidas, porque o sertanejo quase não é ouvido, está à margem da academia, à margem desse campo literário”, observa.


A escritora, jornalista e professora Joalva Menezes de Moraes também encontrou na FLICA uma oportunidade de compartilhar suas reflexões sobre educação e conhecimento. Depois de acompanhar a festa durante anos como jornalista, participa pela primeira vez como autora, apresentando o livro Como tornar uma Escola Decolonial? Reflexões sobre possibilidades e caminhos, resultado de sua pesquisa de doutorado na Universidade Aberta de Portugal.


A obra questiona a predominância de referências europeias nos modelos educacionais e defende o reconhecimento dos conhecimentos brasileiros, especialmente os de matriz afro-brasileira e indígena. Joalva propõe, inclusive, uma mudança de perspectiva na linguagem: trocar o conhecido verbo “nortear” por “sulear”, valorizando os saberes produzidos no Sul.


“Eu não quero mais falar que eu vou nortear, eu quero sulear, que é olhar pra aqui pra baixo, porque a gente produz muito e com sabedoria”, afirma.


A diversidade também se manifesta na experiência da escritora e editora Yara Fers, à frente da Arpillera, editora independente de Arembepe, em Camaçari. Seus livros artesanais convidam o leitor a uma experiência que ultrapassa a leitura convencional. Costuras aparentes, tecidos, relevos, recortes e papéis de diferentes texturas transformam cada publicação em uma peça singular, produzida com cuidado e sensibilidade.


Com mais de 100 títulos lançados desde 2022, a editora participa pela primeira vez da FLICA, depois de tentar conquistar espaço em edições anteriores.


“É diferente eu colocar esse livro numa foto no Instagram e a pessoa chegar e pegar e sentir o papel, o material. Estar em eventos literários para nós é decisivo”, conta Yara.


São histórias e experiências distintas, mas que encontram na Casa dos Autores e das Autoras Baianas um ponto de convergência: a possibilidade de chegar a novos leitores.


Mais do que publicar, é preciso fazer circular
A preocupação com a circulação dos livros também foi destacada pelo diretor-geral da Fundação Pedro Calmon, Sandro Magalhães. Para ele, embora os caminhos para publicar uma obra tenham se ampliado, ainda existe um desafio importante para os escritores brasileiros: fazer com que seus trabalhos cheguem ao público.


“Hoje já existe uma possibilidade maior de publicar seu livro, mas ainda há um grande problema: a circulação dessa obra”, ressalta.


Segundo Sandro, a Fundação apoia a publicação de aproximadamente 100 obras por ano, trabalha na implantação de 300 espaços de leitura em diferentes territórios e prepara um novo Plano Estadual do Livro, da Leitura e da Memória, com diretrizes para os próximos dez anos.


“Essas ações precisam se transformar em ações de Estado, em política de Estado, não apenas uma política da nossa gestão”, defende.


É justamente nesse contexto que a Casa dos Autores e das Autoras Baianas ganha relevância. Criado em 2023, o espaço vem ampliando as oportunidades de participação de escritores na programação da FLICA. Nesta edição, a seleção levou em consideração a trajetória dos candidatos, a relação das obras com a temática da festa e, sobretudo, a possibilidade de apresentar trabalhos que ainda não alcançaram a visibilidade merecida.


Os autores selecionados têm dez minutos para apresentar suas obras, em encontros mediados por nomes reconhecidos da literatura baiana, e contam com estandes para exposição e comercialização dos livros. As editoras também participam de rodas de conversa, apresentam escritores de seus catálogos e disponibilizam suas publicações ao público.


Para Dinalva Melo, esse ambiente representa uma das dimensões mais importantes de uma feira literária: preservar a essência do encontro entre quem escreve e quem lê.
“Eu diria que esse ambiente traduz as feiras no seu sentido mais original e pleno. Aqui é como se fosse o espaço guardião da literatura no contexto de feiras que tendem a ser festa”, define.


Uma casa de portas abertas para a Bahia.
Em Cachoeira, cidade que carrega na arquitetura, na memória e na história a força da cultura baiana, a Casa dos Autores e das Autoras Baianas representa mais do que um espaço de exposição de livros. É um lugar de encontro entre gerações, territórios, experiências e diferentes formas de expressão.


Por trás dessa construção está o trabalho de uma curadora que compreende a literatura como instrumento de educação, identidade e transformação social. Dinalva Melo ajuda a colocar em evidência escritores que, muitas vezes, precisam vencer distâncias geográficas, dificuldades econômicas e barreiras de acesso para apresentar suas obras.


Seu trabalho aponta para uma compreensão essencial: uma política cultural verdadeiramente democrática não deve apenas celebrar os autores já conhecidos, mas também criar condições para que novas vozes sejam ouvidas.


Afinal, cada livro que encontra um leitor amplia horizontes, preserva memórias e abre possibilidades. E talvez seja esse o maior legado da Casa: mostrar que a literatura baiana não está concentrada em um único lugar, mas floresce em cada território, nas histórias de seu povo e na coragem de quem transforma palavras em conhecimento, arte e memória.

Foto: Gustavo Rozario/ Divulgação
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