Fábio Costa Pinto
Jornalista, Membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e Conselheiro da Fundação Hansen Bahia.
Cachoeira tem uma capacidade muito própria de reunir tempos, histórias e sentimentos. Em suas ruas, a literatura encontra a música, a arte dialoga com a fé e a ancestralidade permanece viva nas manifestações culturais que atravessam gerações. É nesse cenário de riqueza histórica e identidade cultural que a cidade recebe, de 5 a 8 de novembro, a 14ª Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA), ao mesmo tempo em que celebra uma de suas mais antigas e significativas manifestações religiosas e populares: os festejos de Nossa Senhora d’Ajuda.
Mais do que uma coincidência de calendários, esse encontro representa uma oportunidade de compreender Cachoeira em sua essência. Uma cidade onde a cultura não está apenas nos livros, nos palcos ou nos espaços de exposição, mas também nas ruas, nos cortejos, nos cânticos, nas cores, nos gestos de fé e nos saberes transmitidos de geração em geração.
Durante quatro dias, a FLICA transforma Cachoeira em um grande espaço de circulação de ideias, manifestações artísticas e experiências culturais. Inspirada pelo tema “Como ser criativo com tanta IA por aí?”, a edição de 2026 propõe uma reflexão sobre a criatividade em tempos de inteligência artificial, reunindo escritores, artistas e personalidades nacionais e internacionais em debates, lançamentos de livros, sessões de autógrafos, saraus, contações de histórias, apresentações artísticas e teatrais, exposições e shows.
Mas a FLICA também ultrapassa as páginas dos livros e faz da cidade um grande palco a céu aberto. A música toma conta dos espaços culturais e das ruas, aproximando diferentes gerações e sonoridades, em uma programação que valoriza tanto artistas consagrados quanto os talentos que nascem e se desenvolvem no Recôncavo Baiano.
No Palco Ritmos, nomes como Jau, Sued Nunes, Mãeana e a orquestra afrolatina Skanibais representam a diversidade musical da programação. Já o Palco Raízes abre espaço para artistas, grupos e manifestações culturais da região, reafirmando a importância de reconhecer e valorizar quem constrói cotidianamente a identidade cultural do território.
Essa proposta encontra sentido nas palavras do curador artístico Linnoy Nonato, que destaca a importância de valorizar a criatividade que nasce das raízes culturais cachoeiranas, em contraponto aos padrões reproduzidos pela inteligência artificial. A intenção, segundo ele, é estabelecer uma conexão entre memória, ancestralidade, vanguardismo e poesia, respeitando aqueles que mantêm vivas expressões como o samba de roda e o samba de terreiro.
A programação musical começa na quinta-feira (5), às 21h, com a apresentação dos Skanibais. Na sexta-feira (6), no mesmo horário, o palco recebe Jau. No sábado (7), a noite será marcada pelo protagonismo feminino, com Sued Nunes, às 20h, seguida de Mãeana, às 22h. Nas três noites, a abertura fica por conta do cordelista Jonas Samaúma.
No Palco Raízes, a diversidade regional também ganha protagonismo. A programação reúne Projeto Passo a Passo, Fábio Aruga, Simplesmente Luís, Juninho Cachoeira, Estrelas Vulgares, Magno Mendes, Grupo Ex 13 – Dança de Rua, Samba de Roda Filhos da Barragem, Paco Duarte e Pagodde do Cleytinho, entre outros representantes da produção artística e cultural do Recôncavo.
No domingo (8), a programação se despede com o Bye Bye FLICA, um arrastão cultural que leva manifestações tradicionais pelas históricas ruas do centro de Cachoeira. Uma despedida que, simbolicamente, reafirma o espírito de uma festa construída a partir do encontro entre diferentes expressões culturais.
A fé e a ancestralidade que caminham pelas ruas.
Com mais de 150 anos de história, os festejos de Nossa Senhora d’Ajuda são reconhecidos como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia desde 2017. Sua permanência ao longo do tempo revela a força de uma tradição que resiste, se renova e continua sendo parte fundamental da identidade do povo cachoeirano.
Nos dias 7 e 8 de novembro, as ruas recebem três manifestações que integram o calendário cultural da celebração: o Terno das Crianças, o Terno do Silêncio e a tradicional Lavagem das Baianas.
No sábado (7), às 15h, o Terno das Crianças sai do Largo da Ajuda. Pequenos foliões, vestidos com roupas coloridas, levam música, dança e alegria pelas ruas da cidade. É uma manifestação que simboliza a continuidade de uma tradição na qual as novas gerações assumem, desde cedo, o papel de guardiãs da memória cultural de Cachoeira.
À meia-noite, na passagem do sábado para o domingo, também no Largo da Ajuda, acontece o Terno do Silêncio, uma das manifestações mais simbólicas dos festejos. Seu caráter singular faz parte da riqueza de uma celebração que reúne diferentes formas de expressão da religiosidade e da cultura popular.
No domingo (8), às 10h, a cidade vive um de seus momentos mais representativos: a Lavagem das Baianas. O cortejo parte do Largo do Monte, nas proximidades da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, e percorre as ruas históricas de Cachoeira, reunindo baianas com seus trajes tradicionais, grupos culturais e devotos.
O percurso passa pela escadaria às margens do Rio Paraguaçu e segue até a Capela de Nossa Senhora d’Ajuda, onde acontece a tradicional lavagem com água de cheiro. Um ritual que reúne fé, ancestralidade e celebração das tradições afro-baianas, reafirmando a importância dessas manifestações na formação cultural do Recôncavo.
É uma experiência que vai além da contemplação. Para quem chega a Cachoeira em busca dos livros, da literatura e dos debates da FLICA, acompanhar esses cortejos significa conhecer outra dimensão da cidade: aquela que se expressa na memória de seu povo e na permanência de suas tradições.
Uma cidade, muitas formas de celebrar a cultura.
É importante destacar que os festejos de Nossa Senhora d’Ajuda são realizados de forma independente da programação da FLICA. Embora algumas atividades aconteçam nos mesmos dias, são celebrações com organização e calendários próprios, que se encontram no espaço comum da cidade e enriquecem a experiência de quem visita Cachoeira.
A festa religiosa e popular começa no dia 1º de novembro, com o Bando Anunciador, e segue até o dia 15. Depois das manifestações que coincidem com a FLICA, a programação continua com o Terno dos Ciganos (10/11), o Terno das Cozinheiras (11/11), o Terno do Acarajé e Abará (12/11), o Embalo (13/11) e o Terno da Alvorada (15/11).
A programação religiosa acontece entre os dias 11 e 13 de novembro, com o Tríduo em Louvor a Nossa Senhora d’Ajuda, sempre às 19h. No dia 14, também às 19h, acontece a procissão e a missa.
Assim, durante o mês de novembro, Cachoeira reafirma sua vocação para o encontro entre diferentes expressões culturais. De um lado, a literatura e o pensamento contemporâneo; de outro, a música, a fé, os ritos e as manifestações populares que preservam a história e a identidade de seu povo.
Talvez esteja justamente aí uma das maiores riquezas de Cachoeira: compreender que a cultura não se constrói apenas olhando para o futuro, mas também reconhecendo, valorizando e protegendo aquilo que recebemos de nossos antepassados.
Em tempos de tantas transformações tecnológicas e de novas formas de produzir e compartilhar conhecimento, a FLICA propõe discutir os caminhos da criatividade. Nas ruas de Cachoeira, entretanto, as tradições também oferecem uma resposta: a criatividade de um povo que transforma sua história em celebração, mantém viva sua ancestralidade e faz da cultura uma expressão permanente de pertencimento.
Entre livros, acordes, cortejos, fé e tradição, Cachoeira não apenas recebe visitantes. Compartilha sua história, apresenta sua identidade e reafirma a força de um patrimônio cultural que pertence ao seu povo e à memória da Bahia.
Foto Diego Silva/ Divulgação
