O Federal Reserve (Fed) elevou a taxa básica de juros dos Estados Unidos em 0,25 ponto percentual nesta quarta-feira (16), fixando a meta na faixa de 3,75% a 4% ao ano. Esta é a primeira vez que o Fed eleva os juros dos EUA desde 2023. Ao sinalizar novos aumentos ainda este ano, o Fed impõe uma virada na liquidez global e pressiona a política monetária de emergentes, sobretudo do Brasil.
A decisão decorre do estresse geopolítico no Oriente Médio, que empurrou o preço do barril de petróleo para acima de US$ 100. Com gargalos na navegação pelo Estreito de Ormuz e Bab el-Mandeb, além de ataques a infraestruturas de energia, o choque de oferta renovou os temores inflacionários nas economias centrais.
Para o economista Charles Mendlowicz, sócio da consultoria de wealth management Ticker Wealth e fundador do canal Economista Sincero, a medida confirma o repasse da inflação americana, que subiu 0,4% em agosto. A alta dos combustíveis, com a gasolina saltando de US$ 2,70 para mais de US$ 4 o galão em várias regiões nos Estados Unidos, compromete a renda das famílias.
“A inflação subiu nos EUA e os números são preocupantes. O avanço do petróleo afeta os combustíveis no momento em que o mercado de trabalho se mantém forte e a dívida pública atinge US$ 40 trilhões”, avalia Mendlowicz. O economista complementa dizendo que o Tesouro americano tem sido forçado a oferecer rendimentos mais altos para financiar seu déficit: na última segunda-feira (14), os rendimentos dos títulos de 10 anos chegaram a 5%, algo não visto desde 2007.
A elevação dos juros longos encareceu o crédito imobiliário, levando as hipotecas a mais de 7% ao ano. “As residências tornaram-se inacessíveis nos Estados Unidos. Quem tem financiamento antigo se recusa a trocar de contrato, travando a mobilidade residencial e gerando perdas consecutivas aos credores de hipotecas”, diz o economista.
Decisão do Fed terá reflexos na Selic
A decisão em Washington coincide com a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) no Brasil. Contudo, Mendlowicz observa que o fator externo se sobrepôs às variáveis domésticas na formação das expectativas de mercado.
“A notícia da Selic, que caiu de 14% para 13,75%, virou uma pauta secundária diante da decisão do Fed. O mercado global opera de olho no custo do capital americano. Se os Estados Unidos continuarem subindo as taxas, o Copom vai ter que parar de reduzir a Selic”, pondera o Economista Sincero, citando o afunilamento do diferencial de taxas.
“O investidor prefere ganhar 5% ou 6% ao ano nos Estados Unidos, em dólar e com muito mais segurança, do que buscar 8%, 9% ou 10% no Brasil sob elevada volatilidade. Diante da fragilidade da economia brasileira e da inadimplência que atinge quase 9 milhões de pessoas (fonte: Serasa Experian), a renda fixa americana ganha atratividade”, reforça Mendlowicz.
Nesse cenário, ativos de proteção como ouro e Bitcoin registram valorização no mercado internacional. Charles explica que se trata de uma estratégia de diversificação de investidores institucionais contra os riscos fiscais globais e a perda do poder de compra.
Frente ao petróleo elevado, inflação e juros globais em alta, Mendlowicz defende uma postura cautelosa e focada na preservação de patrimônio. “Em momentos de estresse no mercado internacional, a postura adequada exige paciência e maior liquidez na renda fixa. É necessário manter uma reserva de oportunidade para adquirir bons ativos quando as distorções de preço atingirem níveis mais acentuados”, conclui o economista.
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