O amplo auditório do Centro de Cultura da Câmara de Salvador foi pequeno para comportar as centenas de pessoas que compareceram à audiência pública sobre saúde bucal na rede municipal, promovida pela vereadora Aladilce Souza (PCdoB), na manhã desta quinta-feira (3). O interesse, por parte de profissionais da área, deu a dimensão da gravidade do cenário nas Unidades de Saúde da Família, onde a cobertura é de 39%.
O debate foi realizado em parceria com a Comissão de Saúde Bucal dos profissionais aprovados no último concurso da Secretaria Municipal de Saúde, que abriu apenas 15 vagas no edital, já preenchidas. Mas, como a própria SMS já reconheceu a necessidade de mais 120 profissionais de odontologia na rede, a categoria defende que esse contingente seja convocado imediatamente, a partir do cadastro de reserva dos concursados, e a divulgação de um cronograma de convocações.
“Precisamos fazer uma campanha pela melhoria da cobertura da saúde bucal na capital, porque é inaceitável a precariedade que foi descrita aqui pelos servidores. Além de pessoal, falta todo tipo de material, como álcool, luvas, avental, máscaras adequadas, equipamentos e até produtos para restauração dentária “, propôs Aladilce.
Ela sugeriu também reforçar a solicitação de audiência com o secretário Rodrigo Alves para discutir a necessidade de ampliação das equipes. E um novo encontro com o promotor Pablo Almeida, titular da Promotoria de Justiça de Proteção da Moralidade Administrativa e do Patrimônio Público da Capital, autor da Ação Civil Pública sobre a convocação dos concursados de 2024.
Morte por infecção
A vereadora colocou o mandato à disposição da categoria para encaminhar a campanha e continuar as visitas que vem fazendo às unidades, ouvindo as demandas da área da saúde como um todo.
A situação é tão grave que, segundo o cirurgião dentista Ravi Carvalho, do CEO do Cabula e coordenador de saúde bucal do HGE, que está fazendo um levantamento estatístico, “já tem gente morrendo em consequência de infecção odontogênica”. Depoimentos de profissionais da rede municipal emocionaram a plateia, como o da dentista que chorou ao falar “da nossa dor quando temos que dizer a uma criança que não vamos poder atendê-la por não ter material”. Muitos lamentaram a ausência de representação da SMS, convidada para o evento.
A mesa da audiência contou com as presenças de Marcel Arriaga, diretor da Faculdade de Odontologia da UFBA e do Conselho Regional de Odontologia da Bahia; Anderson Freitas, da Faculdade de Odontologia da UFBA; Leonardo Lordelo e Maiara Chagas, do Sindseps; Juliana Jatahy, do Conselho Municipal de Saúde; Ana Carolina Valadares, do Sindiodonto; Maria da Conceição Passidomo, do Conselho Estadual de Saúde; Ana Miguez, da Comissão dos Concursados da Prefeitura; Taís Aparecida Rocha, técnica da área de saúde bucal da Diretoria de Gestão do Cuidado da SESAB.
A programação incluiu exposições dos professores Anderson Freitas e Ana Maria Freire, ambos da UFBA, e de Cristiane Amorim, do movimento Dentistas do SUS.
Além da cobertura atual ser de 39%, eles apontaram que em alguns distritos sanitários ela fica inferior a 20%. No de Itapuã, caiu de 56 para 11%. Dos 134 contratos ativos na área de saúde bucal, 70 estão vencendo nos próximos meses.Aladilce solicitou ainda que o Conselho Municipal de Saúde promova uma audiência pública para ouvir a categoria e estabelecer um processo de fiscalização das unidades de saúde bucal.
“Essa cobertura significa que a cada 10 pessoas, só quatro têm a possibilidade de acesso a atendimento bucal no município. Estamos falando de pessoas, de vidas, não de números”, alertou Ana Miguez.
Foto: Uise Epitácio/ Divulgação
