Especialistas do mercado financeiro analisam a ATA divulgada pelo Copom sobre a redução da taxa Selic para 14% ao ano. De acordo com Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, a ata do Copom veio um pouco mais dura do que o comunicado, embora não tenha mudado a direção da política monetária. “O Banco Central reduziu a Selic para 14%, mas deixou claro que esse corte não significa que estamos diante de uma sequência automática de novas reduções. O mercado esperava uma ata relativamente previsível, sem grandes novidades em relação ao comunicado, e a principal surpresa foi o tom mais contundente em relação às expectativas de inflação. O trecho mais importante é quando o Copom afirma que, em um ambiente de expectativas desancoradas, é necessária uma política monetária restritiva “maior e por mais tempo”. Isso reforça que o Banco Central está disposto a manter os juros elevados pelo tempo necessário para recuperar a credibilidade da meta”, diz.
Ele também observa que o Copom voltou a alertar que a falta de disciplina fiscal, o aumento do crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida podem elevar a taxa de juros neutra da economia. “Traduzindo: quanto maior a pressão fiscal, mais difícil fica para o Banco Central reduzir os juros sem colocar a inflação novamente sob pressão. Ao mesmo tempo, a ata reconhece que a economia está desacelerando e que os efeitos da política monetária restritiva já estão aparecendo. Isso mantém a porta aberta para novos cortes. Portanto, a leitura para o mercado é de cautela. O corte de 0,25 ponto percentual aconteceu, mas o Copom não está em piloto automático. Setembro continua em aberto e vai depender dos próximos dados de inflação, atividade, mercado de trabalho, expectativas e, principalmente, do comportamento das contas públicas. A mensagem para o investidor é simples: o BC cortou os juros, mas não tirou o pé do freio”.
Para Roberto Troster, Coordenador do CEFEB, a ata registra a incerteza quanto à estabilização da dívida pública, mas não registra o papel da taxa de juros nessa dinâmica. “O Comitê acerta ao alertar que a trajetória da dívida e a falta de previsibilidade fiscal elevam a taxa neutra e, por consequência, o custo da desinflação em termos de atividade. Contudo, apresenta uma lacuna analítica ao tratar a taxa de juros apenas como remédio monetário, sem reconhecer que ela é, simultaneamente, pressão fiscal: via conta de juros, a Selic mais alta eleva o serviço da dívida e, portanto, o resultado nominal, retroalimentando o próprio estoque de dívida bruta (DBGG) que o Comitê aponta como fonte de risco”.
Para Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, “O tom da ata divulgada mostra que o Comitê reitera que “a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário”, condicionando os próximos passos aos dados, e insiste que a política monetária “mantenha caráter restritivo”, já que a inflação ainda é vista como pressionada pela demanda. Não há qualquer indicação de magnitude ou calendário para os próximos movimentos. Para as perspectivas futuras da Selic, o ponto mais relevante é a ênfase recorrente na desancoragem das expectativas de inflação ao afirmar que nesse ambiente “exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado”, o que sugere que o ritmo de flexibilização deve ser mais lento do que o observado em ciclos anteriores”.
Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa macroeconômica do Banco Pine, entende que: “Diante desse cenário, revisamos nossa projeção para a taxa Selic e passamos a esperar reduções de 0,25 p.p. em cada uma das reuniões restantes do Copom em 2026, levando a taxa básica para 13,25% a.a. ao fim do ano. A revisão reflete, principalmente, nossa expectativa de continuidade da desaceleração da atividade econômica, que deverá contribuir para o processo de desinflação. Ainda assim, avaliamos que o ciclo de calibração do grau de restrição monetária deverá permanecer gradual, diante da desancoragem das expectativas de inflação e dos riscos ainda elevados em torno do cenário prospectivo.”
Para Natalie Victal, economista-chefe da SulAmerica Investimentos, a Ata mantém tom “neutro” do comunicado. “Copom dependente dos dados, reconhecendo a desaceleração de atividade – em linha com o cenário base dele. Por outro lado, alguns elementos de maior preocupação – expectativas, dados mistos, entre outros – enfraquecem, nesse momento, o debate de aceleração. Compatível com, pelo menos, mais um corte de 25bps. Revisamos a projeção de Selic 2026 para 13,75%, e mantemos risco baixista pra essa projeção. Esse risco deve-se a nossa leitura da função de reação do BC aos dados que serão divulgados”.
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