Especialistas do mercado financeiro avaliaram a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central em decidiu reduzir a taxa básica de juros para 14,50% a.a.
Para Pablo Spyer, Conselheiro da Ancord e economista, o resultado do IPCA-15 de abril veio ligeiramente melhor que o esperado, com alta de 0,89%, abaixo das projeções de 0,98%. “O dado confirma um cenário de inflação pressionada, mas ainda concentrada em itens mais voláteis, especialmente alimentos e combustíveis, muito influenciados pelo ambiente externo e pela recente alta do petróleo”, pontua.
Ele observa que, apesar da aceleração em relação ao mês anterior, não observamos, neste momento, um processo de descontrole inflacionário. “A perda de força dos serviços na margem é um sinal positivo, mas o aumento da difusão mostra que a inflação ainda segue relativamente espalhada pela economia, o que exige cautela na condução da política monetária”.
No tocante ao mercado financeiro, a visão do economista é que o dado não muda substancialmente o cenário-base. A inflação continua sob pressão, mas dentro de um quadro administrável, o que mantém abertas as apostas de um corte de 0,25 ponto na taxa Selic pelo Banco Central nesta quarta. “Trata-se de um resultado que reforça a necessidade de vigilância, mas que não altera a trajetória esperada para a política monetária neste momento”.
Na visão de Natalie Victal, Economista-chefe da SulAmérica Investimentos, o BC mostra um espaço para cortes ainda menor.
“Para nossa projeção de Selic, vamos revisar nossa trajetória de juros pra cima – lembrando que temos 13% para 2026. Estamos debatendo, mas dado o nosso cenário macro – de atividade mais forte e desinflação mais complexa – avaliamos que o risco de PAUSA do ciclo em junho é relevante”.
José Márcio Camargo, Economista-chefe da Genial Investimentos, apesar de considerar a piora do cenário entre as duas últimas reuniões, o Banco Central ainda tem uma margem de atuação e reduziu a taxa de juros em 0,25 p.p.
“Dado o atual cenário e o nível elevado de incerteza, incluindo os impactos do conflito no Oriente Médio e uma política fiscal expansionista, o nosso cenário-base projeta a Selic em 13,25% ao ano ao final do ciclo. Nesse caso, o Copom deve reduzir a taxa em 0,25 p.p. em todas as reuniões ao longo de 2026. Entretanto, se os dados continuarem piorando entre essa e a próxima reunião, muito provavelmente o BC irá parar de reduzir a taxa de juros já na próxima reunião”.
Segundo Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB Investimentos, talvez não fosse necessário reduzir a taxa de juros neste momento.
“Há o problema do endividamento das famílias, mas também existe a questão da meta de inflação, que é de 3%. O Relatório Focus mostra que as expectativas de inflação estão desancoradas, em torno de 4,86%, o que é um problema relevante. A pergunta que fica é: para que reduzir 0,25 p.p. agora? Se tudo indica que a crise no Oriente Médio deve continuar, talvez fosse mais interessante uma pausa estratégica, o que não aconteceu. O cenário mudou. A geopolítica está mais instável, a inflação mais resiliente, e o ambiente, no geral, mais desafiador do que no início do ano”, pontua.
Imprevisibilidade
Lucas Rocha, sócio da Alumni Investimentos, entende que, em momentos de guerra, tudo fica imprevisível e o aumento do índice inflacionário do país é inevitável diante do que vem acontecendo no Oriente Médio. “Mesmo com a queda de 0,25% na taxa Selic anunciada hoje, os juros para empresas endividadas não terão grandes alterações. O risco de crédito continua muito alto, o volume de empresas em crise continua aumentando, ou seja, ainda teremos um ano de muitos desafios, tanto para os empresários, quanto para instituições financeiras”.
João Pedro Camargo, sócio da incorporadora Liv Inc, entende que o ciclo de juros no Brasil hoje é atravessado por uma dinâmica geopolítica global que traz mais volatilidade e reduz a previsibilidade. “Para setores intensivos em capital e prazo longo, como a construção civil, o mais relevante é a sinalização do Copom para os próximos meses. O cenário ainda exige disciplina, porque o custo de financiamento e a pressão sobre insumos mantêm elevado o nível de risco dos projetos. Na prática, o impacto para a economia real é um ambiente mais incerto para tomada de decisão”.
Foto Fernando Frazão/Agência Brasil

