As desigualdades de gênero permanecem como uma característica estrutural do mercado de trabalho baiano. É o que aponta levantamento da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), elaborado a partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do 4º trimestre de 2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O panorama divulgado em alusão ao Dia Internacional da Mulher evidencia diferenças significativas entre homens e mulheres na participação no mercado de trabalho, nas taxas de desemprego, nas condições de ocupação e nos rendimentos. Mas, apesar dos salários mais baixos, elas têm maior escolaridade e estão presentes em ocupações de maior qualificação.
Segundo a PNAD Contínua, em 2025, a população da Bahia era de 14,863 milhões de pessoas. Destas, 12,185 milhões estavam em idade ativa, ou seja, em idade de trabalhar (14 anos ou mais). A taxa de participação geral da população na força de trabalho em relação ao contingente em idade ativa foi de 59,1%. Entre os homens, a participação atingia 69,2%, enquanto a proporção entre as mulheres foi de 50,0%, uma diferença de 19,2 pontos percentuais.
A dificuldade em encontrar ocupação por parte daqueles sem trabalho, mas disponíveis e que buscaram uma oportunidade, era superior entre elas. A taxa de desocupação feminina foi de 10,8%, quase o dobro da masculina (5,8%).
O desalento, situação em que pessoas disponíveis a trabalhar desistem de procurar emprego, por exemplo, por não acreditar que encontrarão uma oportunidade, atingia 253 mil mulheres. Esse número entre os homens foi de 169 mil, o que reforça que parte da desigualdade se materializa antes mesmo da inserção ocupacional.
A taxa de informalidade do estado permaneceu elevada (51,3%). A informalidade é caracterizada por atividades sem carteira de trabalho assinada, normalmente mais precárias, mal remuneradas, instáveis e de menor prestígio. Entre os homens, o percentual foi de 53,8% e entre as mulheres, 47,9%. Apesar da maior informalidade entre os homens, quase a totalidade das domésticas (86,1%) não possui carteira assinada, são informais, evidenciando forte precarização. O trabalho doméstico remunerado permanece fortemente feminizado: são 381 mil mulheres ocupadas nessa atividade, frente a apenas 33 mil homens
Homens e mulheres estão inseridos em estruturas ocupacionais distintas. Observa-se forte presença masculina em ocupações ligadas à construção civil, indústria, atividades primárias e funções operacionais. Trata-se de segmentos historicamente associados a maior esforço físico e maior exposição a riscos ocupacionais.
As mulheres baianas possuem maior presença relativa em ocupações de serviços e comércio, ocupações elementares, das ciências e intelectuais, de apoio administrativo e técnicas e profissionais de nível médio. Esses dados dialogam com o fato de que as mulheres apresentam maior escolaridade média, o que se reflete na sua maior presença relativa em ocupações que demandam escolarização formal, assim como reforçam o deslocamento progressivo das mulheres para ocupações de natureza técnica e organizacional.
A análise dos dados permite inferir, com cautela, que houve conquistas e manutenções de desigualdades. Por um lado, as mulheres avançaram em ocupações de maior qualificação, especialmente nas áreas intelectuais e administrativas e a inserção feminina não está restrita a ocupações elementares (trabalhos de complexidade simples, que exigem no máximo o ensino fundamental completo, como por exemplo serviços de limpeza, ajudantes gerais e vendedores ambulantes).
Contudo, cabe destacar que esses dados apenas mostram a distribuição da população por ocupação, não revelando desigualdades de rendimentos nem posições hierárquicas, elementos que frequentemente colocam o homem em condições mais favoráveis que as mulheres. Além disso, elas permanecem fortemente concentradas nos setores de serviços e comércio, atividades marcadas pela elevada rotatividade e rendimentos médios mais baixos. Elas também estão proporcionalmente mais presentes do que eles nas atividades elementares (21,5% delas em comparação à 19,4% deles) e o trabalho doméstico remunerado continua majoritariamente feminino e com alta informalidade.
A análise dos rendimentos revela outras desigualdades. A renda média real habitualmente recebida no trabalho principal da população baiana, em 2025, foi de R$ 2.440,63 para eles e de R$ 2.033,96 para elas. Isso significa que as mulheres recebem, em média, cerca de 83,3% da renda masculina.
Quando se observa o recorte por cor/raça, as desigualdades se aprofundam. Em 2025, homens negros passaram a apresentar rendimento médio de R$ 2.222,49, enquanto entre as mulheres negras a média foi de R$ 1.845,57. As mulheres negras receberam 83,0% da renda dos homens negros, o que representa uma diferença de R$ 376,92. Entre as pessoas brancas, os homens tiveram rendimento médio de R$ 3.417,29 e as mulheres de R$ 2.823,66. As mulheres brancas receberam cerca de 82,6% da renda dos homens brancos, com diferença de R$ 593,63.
De forma geral, o breve panorama apresentado reforça que a redução das desigualdades de gênero no mercado de trabalho baiano exige políticas articuladas que envolvam ampliação da oferta de serviços públicos de cuidado, permitindo que as mulheres possam ingressar no mercado de trabalho e permanecer nele tendo suporte para o cuidado de crianças, pessoas com deficiência e idosos; valorização e formalização do trabalho doméstico; incentivo à inserção feminina em setores industriais e tecnológicos; políticas de promoção da igualdade salarial; e estratégias específicas voltadas às mulheres negras.
Neste 8 de março, a SEI reafirma que a igualdade de gênero no trabalho é condição essencial para o desenvolvimento econômico e social da Bahia. Transformar crescimento em inclusão depende de políticas baseadas em evidências.
Foto: Jean Vagner/Ascom SEI
