Eduardo Tambellini, Principal Business Consultant da FICO
O início do ano no Brasil sempre traz uma sobrecarga no orçamento das famílias. Logo em janeiro surgem despesas fixas relevantes como impostos sobre veículos e imóveis, além de custos com matrículas e material escolar. Ao mesmo tempo, muitos consumidores chegam ao novo ano com reservas baixas depois do consumo das festas de fim de ano – o que cria um cenário perfeito para que dívidas antigas ganhem urgência.
Esse contexto faz de janeiro um mês central para renegociação de débitos, transformando-o em um período altamente disputado pelas instituições credoras. Para entender esse fenômeno, é preciso olhar para alguns dados e comportamentos que se repetem ano após ano.
Janeiro e o aumento da inadimplência
Os números mais recentes sobre o mercado brasileiro mostram que a inadimplência costuma crescer na virada do ano. Em janeiro de 2025, cerca de 40,17% dos adultos brasileiros estavam com o nome negativado, o que corresponde a quase 69 milhões de consumidores – e o número de dívidas em atraso também aumentou frente ao mês anterior.
Esse movimento não é isolado. Em anos anteriores, a recuperação de novembro e dezembro tende a reverter logo no começo do ano, quando os consumidores, pressionados pelas contas acumuladas, veem seu nível de endividamento novamente subir. Entre os meses de dezembro e janeiro, o aumento no número de devedores acontece de forma consistente, impulsionado tanto pela falta de liquidez quanto pela necessidade de reajustar compromissos financeiros.
Outro dado que destaca a pressão financeira de janeiro é o peso do serviço da dívida no orçamento familiar. Estudos mostram que mais de 20% dos brasileiros chegam a comprometer mais da metade da sua renda com pagamentos de dívidas nesse mês, o maior nível registrado nos últimos meses.
Por que isso gera tanta disputa entre credores
Para os credores, esse cenário é uma chance estratégica de reconquistar receita e reduzir perdas. Consumidores vulneráveis a perdas de crédito e a condições mais severas tendem a buscar acordos nesse início de ano, pois enfrentam um pico de despesas simultâneo a salários ainda “frescos” depois do 13º salário ou do pagamento de férias.
Essa combinação torna o consumo de crédito mais sensível e as negociações mais complexas. Credores que usam dados comportamentais e análise preditiva conseguem oferecer propostas mais alinhadas com a capacidade real de pagamento de cada cliente, aumentando a taxa de sucesso dos acordos. Não se trata apenas de oferecer descontos, mas de propor condições adequadas ao perfil financeiro, considerando renda, histórico e padrões de pagamentos.
Renegociação como ferramenta de recuperação, não apenas de administração de risco
Ofertas genéricas normalmente resultam em bate-volta para a inadimplência, mas propostas com inteligência analítica ajudam a reduzir reincidências. Em plataformas de renegociação de dívidas, por exemplo, milhares de acordos são fechados todos os meses com valores médios de desconto significativos, o que demonstra tanto a demanda dos consumidores quanto a eficiência de ofertas personalizadas no contexto de janeiro.
A disputa entre credores se intensifica porque nem todos os consumidores conseguem priorizar todas as dívidas de uma vez. Aqueles que conseguem identificar o momento certo de contato, o canal de comunicação mais eficaz e a proposta mais aceitável acabam fechando mais acordos. Isso reduz o risco futuro de perda e melhora a experiência do cliente, criando uma relação mais sustentável e menos traumática com o crédito.
Janeiro como termômetro do ciclo de crédito
Mais do que um mês sazonal de renegociação, janeiro funciona como um marcador do comportamento financeiro do consumidor e da saúde de crédito em geral. O aumento da inadimplência no período indica uma pressão acumulada que vem do ano anterior e que se reflete em negociações intensas nos primeiros dias do novo ciclo. Para credores, isso significa repensar estratégias, alinhando modelos de riscos e oferta com a econômica do cliente.
O uso de ferramentas de análise avançada permite transformar esse pico sazonal em oportunidade de aprendizado. Com modelos que capturam padrões de pagamento e risco setorial, as instituições conseguem desenhar estratégias que não só antecipam a disputa por renegociação, mas também fortalecem políticas de crédito ao longo de todo o ano.
Sendo assim, abordar o cliente devedor com ofertas claras, decididas com inteligência e baseadas no perfil de cada devedor, além criar um processo que não seja apenas da comunicação do débito mais sim levar ao cliente, através do canal de sua preferência, estas condições e permitir que o mesmo feche a melhor negociação e já faça a conexão com seus meios de pagamentos desejados, é o que torna esta relação mais saudável para os credores.
No final das contas, janeiro não é só um mês competitivo – é um espelho das tendências de crédito e inadimplência que moldam o ciclo econômico de famílias e empresas. Com informação e inteligência, essa fase pode ser menos um problema e mais um ponto de partida para relações de crédito mais resilientes.
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