Para Pablo Spyer, economista e membro do Conselho da Ancord, o Copom manteve a Selic em 15%, como esperado, mas promoveu uma mudança relevante na comunicação ao indicar, de forma explícita, a intenção de iniciar o ciclo de cortes de juros já na próxima reunião, em março, caso o cenário base se confirme. “O comunicado reconhece o arrefecimento da inflação e os efeitos da política monetária, ainda que destaque desafios importantes, como a resiliência do mercado de trabalho, pressões em serviços e expectativas de inflação ainda desancoradas. Ao antecipar a flexibilização, o Banco Central oferece um forward guidance ( orientação futura) claro, mas cuidadosamente condicionado, reforçando que o compromisso com a meta impõe cautela quanto ao ritmo e à magnitude dos cortes. A mensagem é de que o ciclo de aperto terminou, mas o ciclo de afrouxamento será conduzido com serenidade, dependente dos dados e da evolução do cenário fiscal, do câmbio e do ambiente externo”.
Segundo Natalie Victal, economista chefe da SulAmérica Investimentos, a decisão de manutenção veio em linha com o esperado. O cerne da comunicação também esteve alinhado à nossa expectativa, ao sinalizar que o cenário-base aponta para março. “No entanto, o comunicado foi um pouco mais dovish ao indicar explicitamente que, sob o cenário-base, o Copom antevê um corte já na próxima reunião. Vale a ressalva de que o Relatório Focus projeta um corte de 50 pontos-base em março; assim, o cenário-base embutido nas projeções que fundamentaram essa sinalização é de 50 bps. Para reforçar o compromisso com a meta, o Comitê destacou a necessidade de serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo de cortes, o que não deve provocar revisões relevantes para a taxa terminal. Em relação ao ritmo, permanece uma divisão entre 25 e 50 bps no diagnóstico. Dito isso, a apreciação do câmbio e a perspectiva de dados um pouco mais fracos referentes a dezembro tendem a fortalecer a hipótese de um corte de 50 bps, enquanto a possibilidade de 75 bps também passa a ganhar alguma probabilidade. A projeção de inflação em 3,2% veio em linha com o esperado. No conjunto, mantemos nossa projeção de um corte de 50 bps em março e de taxa terminal em 13% em 2026”.
O estrategista-chefe da GCB Investimentos, Lucas Constantino, considera que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 15,0% a.a., em linha com as expectativas da maior parte do mercado e com o cenário-base da GCB Investimentos. “A decisão reforça a postura conservadora adotada pela autoridade monetária em um contexto no qual a inflação ainda não convergiu para a meta, as expectativas permanecem desancoradas e o ambiente doméstico e global segue marcado por incertezas relevantes. O comunicado trouxe uma mudança relevante na comunicação ao retirar o trecho em que abordava a necessidade de uma política monetária “em patamar significativamente contracionista por período bastante prolongado”, ao mesmo tempo em que passou a antever, de forma condicional, o início do ciclo de flexibilização já na próxima reunião, caso o cenário esperado se confirme. Vale destacar que, apesar dessas mudanças, o Copom preservou um tom cauteloso, reforçando que o ritmo e a magnitude dos ajustes dependerão da evolução dos dados e do grau de confiança no processo de convergência da inflação à meta, evitando sinalizações automáticas sobre os próximos passos”.
José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, observa que o comunicado trouxe sinalizações fundamentais para as próximas reuniões. “O ponto de maior inflexão foi a retirada da diretriz que mencionava a exigência de uma política monetária significativamente contracionista por um período bastante prolongado. A exclusão desta frase, que vinha sendo um dos pilares das decisões anteriores, indica que o Banco Central não vê mais a necessidade de manter o rigor atual de forma tão persistente. Confirmando o cenário esperado, o Comitê antecipou que deve iniciar o processo de flexibilização da política monetária já na próxima reunião, em março. Esta foi a parte mais surpreendente do comunicado, superando a minha expectativa inicial de que o sinal para o início dos cortes não seria tão explícito. A mudança no tom sugere que o Banco Central adquiriu maior confiança na efetividade da política monetária e na trajetória de redução da taxa neste momento. Contudo, o Copom ponderou essa postura mais otimista ao destacar que o mercado de trabalho permanece aquecido, o que gera preocupações sobre possíveis pressões inflacionárias futuras. Somado a isso, o fato de as expectativas de inflação para 2026 e 2027 continuarem desancoradas reforça a necessidade de manter a política em terreno contracionista por mais tempo. O cenário desenhado pelo Banco Central indica que a política monetária continuará restritiva para garantir a convergência das metas, porém em um patamar menos severo do que o observado nos últimos meses”.
Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa macroeconômica do Banco Pine, considera que o comunicado divulgado após a decisão indica que o Comitê pretende “iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião” (18 de março) e que “manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”. “Em nossa avaliação, a decisão e o tom do comunicado foram bastante apropriados. O Banco Central sinaliza disposição para reduzir a taxa real de juros de forma gradual e cautelosa, mantendo a política monetária no terreno restritivo, consistente com seu compromisso com o centro da meta de inflação. Mantemos a expectativa de corte de 0,50 p.p. na reunião de março e de Selic em 11,50% a.a. ao fim de 2026”.
Rodrigo Marques, economista chefe da Nest Asset Management, avalia que o Copom destacou o elevado grau de incerteza no qual a política monetária vem sendo conduzida no Brasil. “Ainda assim, sinalizou que, caso o cenário-base se confirme, a flexibilização da política monetária poderá ter início já na próxima reunião, com cortes de magnitude conservadora, de 25 pontos-base. Trata-se, portanto, de uma decisão de manutenção com viés dovish”.
Foto Marcello Casal jr/Agência Brasil
