A aprovação provisória do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, após 26 anos de negociações, inaugura uma nova etapa para as empresas brasileiras, marcada por mais oportunidades, mas também por exigências mais rígidas de estrutura, governança e planejamento tributário. Ao reduzir ou eliminar tarifas e criar regras comuns de comércio, o tratado altera o ambiente competitivo e obriga empresários a reverem a forma como operam, produzem e se posicionam internacionalmente.
Na prática, o acordo amplia o acesso a um mercado de cerca de 451 milhões de consumidores, mas condiciona esse acesso ao cumprimento de padrões regulatórios, ambientais e fiscais mais elevados.
Para Marcos Pelozato, advogado, contador e especialista em estratégia empresarial, o tratado funciona como um divisor de águas. “O acordo não protege empresas ineficientes. Ele protege negócios organizados, com estrutura tributária clara, controle financeiro e capacidade de atender a regras internacionais”, afirma.
Um dos principais impactos está no campo tributário. A redução gradual de tarifas de importação e exportação tende a melhorar margens, mas apenas para empresas que compreendem a composição de seus custos e a incidência de tributos ao longo da cadeia. “Sem planejamento tributário, o empresário pode até ganhar mercado, mas perder rentabilidade. O acordo exige leitura técnica para transformar benefício comercial em resultado financeiro”, observa Pelozato.
O tratado também aumenta a exposição das empresas brasileiras à concorrência europeia dentro do mercado interno. Isso reforça a necessidade de proteção por meio de eficiência operacional, revisão de contratos, reorganização societária e uso correto de regimes fiscais. “A abertura comercial amplia a competição. Quem não se estrutura fica vulnerável, inclusive dentro do próprio país”, diz o especialista.
Para tirar vantagem do novo cenário, empresários precisam enxergar o acordo como um projeto estratégico, e não apenas como uma oportunidade pontual de exportação. Isso envolve mapear produtos com potencial competitivo, adequar processos produtivos, investir em compliance e estruturar a empresa para dialogar com parceiros internacionais. “O empresário precisa pensar como uma empresa global, mesmo atuando localmente. Isso passa por governança, controle de passivos e previsibilidade”, afirma Pelozato.
Outro ponto sensível é a proteção jurídica e financeira do negócio. Com mais integração entre mercados, aumentam também os riscos contratuais, cambiais e operacionais. Estruturas frágeis tendem a sofrer mais em ambientes abertos. “O acordo premia quem tem organização e pune quem opera no improviso. A empresa precisa estar preparada para crescer sem perder controle”, destaca.
Na avaliação do especialista, o maior erro do empresário brasileiro é enxergar o acordo apenas como um benefício externo, distante da realidade do dia a dia. “Esse tratado muda a lógica interna das empresas. Ele exige profissionalização, planejamento tributário contínuo e visão de longo prazo. Quem entender isso primeiro sai na frente”, conclui Pelozato.
Mais do que ampliar mercados, o acordo Mercosul-União Europeia redefine o padrão de sobrevivência empresarial. Em um ambiente mais aberto e regulado, vantagem competitiva deixa de ser preço e passa a ser estrutura.
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